Com samba de terreiro, Tudo Azul Paulistano cultua a origem do ritmo e venera os clássicos

Fernanda Fadel
do BOL, em São Paulo

Você já ouviu falar em samba de terreiro? O nome está ligado a chão de terra batida, espaço onde se desenvolveu o ritmo musical. E, embora esse samba seja cultuado até os dias atuais, ele mantém as características do samba autêntico, sem microfone ou amplificador, honrando os grandes compositores do passado.

O BOL foi conhecer de perto o samba de terreiro praticado pelo grupo Tudo Azul Paulistano, na zona leste de São Paulo, como parte do especial sobre o Centenário do Samba. Há 12 anos, os encontros do grupo veneram as composições do "anos 60 para trás", destacando artistas das velhas guardas das escolas de samba, sambas da "era do rádio", sambistas de partido alto e dão espaço também para canções autorais.

Evelson de Freitas/BOL
Antonio Carlos de Lima, 44, é um dos fundadores do Tudo Azul Paulistano
 "Isso aqui é uma gotinha no oceano do samba", conta Antônio Carlos de Lima, também conhecido como Magrão, 44, um dos fundadores do Tudo Azul Paulistano, que completou 12 anos de história da zona leste da capital paulista.

Hoje ex-integrante do grupo, Magrão reconstrói a trajetória que trilhou com os colegas: "Tudo começou como uma utopia. Os primeiros papos sobre a criação do projeto deste grupo do qual fiz parte foram ideias que fervilharam sobre o papel do samba como ampliação da nossa cultura muito além da batucada", explica.

Segundo Magrão, o fundamento que guiou os passos do grupo foi a mescla de dois pontos importantes: "A missão era exaltar os antigos e dar espaço aos novos compositores, o que significava estar atento à nossa ancestralidade musical bem como com a continuidade do samba".

Depois de diversas reuniões e combinações de ideias entre amantes sambistas, a roda nasceu, oficialmente, no dia 7 de setembro de 2004. O nome do grupo foi inspirado no disco intitulado "Tudo Azul", gravado pela Velha Guarda da Portela em 1999, uma das maiores inspirações dos integrantes até os dias de hoje. A linhagem deles floresceu com o samba de terreiro, uma expressão do nosso passado musical que conduz até os dias de hoje o jeito peculiar de se fazer samba desta roda.

"Bebendo na fonte" do samba

"Nós nos voltamos para um samba mais popular, que remete aos compositores e obras dos anos 60 para trás. Aos artistas que vivenciaram a música nessa época em fundos de quintal ou nos famosos terreirões, que eram as antigas quadras de escolas de samba, feitas de chão de terra batida", conta Guilherme Santana, 37, instrumentista e integrante do Tudo Azul Paulistano há 10 anos.

É uma batida mais básica, sem firula, mas muito bonita", completa Guilherme. "Esse samba que fazemos busca voltar lá na origem do que acontecia nos terreiros", pontua Anderson Lopes Ferreira, 38, do time dos fundadores da roda paulistana.

Evelson de Freitas/BOL
"Com o samba de terreiro, a gente sente a energia do samba", explica o músico Anderson Lopes Ferreira
"Um samba autêntico que não tem microfone e o som dos instrumentos não é amplificado. Assim, a gente consegue sentir melhor a energia do samba, a pulsação da música, sem um arsenal de cabos e caixas. Aquele que não está tocando está cantando; aquele que não cantando está dançando; aquele que não está dançando está batendo na palma da mão. Com nosso estilo, se alguém está se mexendo é porque o nosso samba está realmente chamando essa pessoa", conta Anderson, que afirma ter orgulho de ser "antigão".

A cada mês, os integrantes do Tudo Azul Paulistano selecionam um disco para realizar uma roda temática. "Tem que ser vinil, até nisso somos antigos", brinca Guilherme. "Nós estudamos muito. Pesquisamos a obra, o compositor, o tom das notas e, no dia do samba, a gente conta um pouco dessa história de conhecimento a quem nos acompanha".

Nessa leva de homenageados já entraram Cartola, Candeia, Monarco, Marçal, Ivone Lara, Jorginho Peçanha, Osvaldinho da Cuíca, Nelson Cavaquinho, Paulo da Portela, Paulinho da Viola, entre outros. "São dessas figuras aí que nasceram os novos. Devemos lembrar das influências que vieram do passado para entender o que fazemos hoje", diz Guilherme.

Apaixonado pela cuíca, o músico Ademir Castro conta que o subgênero do terreiro exige algumas particularidades. "Como tudo é desligado, a acústica do samba é mais choca e é necessário muita disciplina para nivelar os instrumentos". Anderson diz que esse é um desafio interminável. "O grande problema é saber equalizar o cara que mete a mão no pandeiro com o cara das cordas do cavaquinho, por exemplo. Nós vamos morrer aprendendo".

Um dos primeiros lugares onde o Tudo Azul Paulistano passou a se apresentar mensalmente foi o Bar do "grande mestre" Moacir, um amigo já falecido que apoiava o trabalho dos músicos na zona leste de São Paulo. Foi lá que Guilherme Santana ficou fascinado pelo repique de anel. "Até então eu nunca tinha visto este instrumento. Vi um colega tocando pela primeira vez e me encantei logo de cara. Ganhei o instrumento um tempo depois e aprendi a tocar sozinho. A gente costuma dizer que batuqueiro nato não precisa de professor. Ele aprende mesmo é na batucada", conta.

Evelson de Freitas/BOL
Guilherme Santana (ao centro), com o instrumento de sua paixão, o repique de anel
"Foi lá no bar do Seu Moacir que me aproximei mesmo do samba. Ele ouvia muita coisa boa, muito samba antigo, muito chorinho. Ele também dedilhava violão bem demais. No começo do 'Tudo Azul', ele cedia o espaço e dava uma cervejinha pra gente tocar e o bar ter um pouco de movimento. Mas acontece que ele gostava muito do que fazíamos e ele nos ensinou primeiro a ser humano e depois a ser sambista. Ele nos deixou muitas lições", relembra Guilherme.

"Quando o nosso reduto era naquele bar, o nosso público era só 'nego véio' que pedia Ataulfo Alves, Candeia, Pinxinguinha. Eles pediam a música e a gente acompanhava. O aplauso desses caras foi muito importante pra gente começar a caminhada", diz Anderson. 

Um encontro de lágrimas

Em julho deste ano, os músicos do Tudo Azul Paulistano realizaram uma roda especial ao lado de Monarco, um dos nomes vivos mais respeitados pela roda, na quadra da Portela, no Rio de Janeiro.

"Quando ele chegou e começou a cantar, eu vi lágrimas rolando no rosto das pessoas. Geralmente, quando o Monarco vai à Portela, ele fica pouco. Neste dia, a gente executou dois discos da Portela e um dele, 'Terreiro', que ele agravou em 1980. Quando deu intervalo, a assessora dele pegou o Monarco pelo braço e disse: 'Vamos'? E ele disse: 'Não vou não, eu vou sentar lá com eles de novo' e ficou conosco por duas horas", conta Guilherme, emocionado.

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Estela Gonçalves de Oliveira (esq.), 25, é fã fiel da roda Tudo Azul Paulistano
Fã fiel do Tudo Azul Paulistano, a assistente administrativa Estela Gonçalves de Oliveira, 25, diz não faltar a nenhum encontro da roda de samba. "Bato cartão, sou apaixonada, amo", se declara. "Eu já perdi aniversário, já fiz coisas absurdas para estar com eles". Uma dessas ocasiões foi a roda com o Monarco: "Foi fantástico. Parecia uma pessoa íntima nossa, parecia que a gente estava ali todo sábado com ele", relembra Estela. 

"O samba está caminhando"

Antonio Carlos de Lima, o Magrão, analisa os passos do samba no ano do Centenário. "O samba não deveria ficar restrito só aos botequins, às casas noturnas, ás rodas ou escolas de samba. O papel dele é muito maior que isso aqui. Um deles é um resgate do orgulho da nossa ancestralidade. O que fazemos hoje só é possível porque, lá atrás, negros heróis sobreviveram e carregaram a cultura com eles para a gente aqui hoje. O samba nasceu na senzala, não nasceu com Dom Pedro ou com o chazinho da Marquesa. Então vejo que o samba não é só a batucada, ele é a nossa história", observa.
 
"Uma frase do Plínio Marcos é muito marcante para mim: 'Um povo que não ama e não preserva a sua forma de cultura mais autêntica jamais será um povo livre'. Ainda somos um povo que não ama e não preserva o que temos aqui. Esse é o meu mantra para o samba, senão nunca seremos independentes e seremos escravos da cultura e dos costumes internacionais. É um retrato triste", desabafa Magrão.
 
Na opinião do músico e do compositor Magrão, o Tudo Azul Paulistano e outros movimentos que "exaltam e dão continuidade" à história do samba são apenas uma pequena parte da grandeza que o samba merece. "Hoje toda roda de samba é um movimento de resistência, eu vejo assim. Quando um novo projeto surge, as pessoas que torcem pelo samba costumam dizer que nasceu mais uma frente de resistência. E quanto mais sambas houver, vamos nos fortalecer. Há 15 anos, era difícil achar uma roda de samba para ir. Hoje, se você quiser, não para em casa com rodas de segunda à segunda. Mas o samba tem 100 anos e ainda há muito o que caminhar por ele", 
 
Tudo Azul Paulistano
Endereço: Avenida Botussuru, 272, Ermelino Matarazzo, São Paulo (no Bar de Kbeça)
Dia e horário: As apresentações são mensais (acompanhe a agenda pela página oficial do Facebook)
Entrada: 1 kg de alimento 
 

Rodas de samba visitadas pelo BOL em São Paulo:

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