"Samba era coisa de negro, éramos reprimidos, nos prendiam", relembra Carlão, da Unidos do Peruche, aos 86 anos

Bárbara Forte
Do BOL, em São Paulo

Carlão, da Unidos do Peruche
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Carlos Alberto Caetano, o Carlão, da Unidos do Peruche, é embaixador do samba de São Paulo e um dos maiores militantes do ritmo na capital paulista. Sua trajetória na música se confunde com a história dos cem anos de samba: dos batuques africanos, que o influenciaram desde a infância, às glórias, como a oficialização do Carnaval paulistano em meio à ditadura militar, em 1968.

Em entrevista ao BOL, Carlão lembrou as dificuldades que enfrentou para fazer o samba emergir na capital. "A sociedade não aceitava, era coisa de negro, éramos reprimidos, nos prendiam. Sempre nos prendiam lá para 19h, 20h. Soltavam a gente às 6h", relembra.

Embora a batucada levasse os jovens negros direto para a delegacia, o militante explica por que nunca passou pela cabeça dele e de seus colegas desistir: "É a cultura de um povo. E na minha cabeça, o português tem a cultura dele, o fado, o vira. O alemão tem a cultura dele, o judeu tem a cultura dele, todos os povos têm sua cultura. E a do negro é essa, qual é a diferença?"


Raízes sólidas

Foi aos 7 anos, em Pirapora do Bom Jesus, a 54 quilômetros de São Paulo, que Carlão ouviu os tambores pela primeira vez. Enquanto a mãe ia para a igreja, seu pai o levava para o jongo (dança de roda de origem africana, com acompanhamento de tambores).

Monalisa Lins/BOL
Carlão simula os batuques do jongo

"Quem estava jongando começava aquela ginga com o corpo. Costumava-se dizer que o samba levanta poeira porque, no jongo, o terreiro era de terra batida. Aquele vai e vem constante só tinha que levantar poeira mesmo", afirma.

A lembrança enraizada na memória fez com que Carlão se tornasse um adolescente ativo. Foi nos anos 1950 que ele entrou para a primeira escola de samba de São Paulo, a Lavapés. Lá, o jovem, no auge dos seus 20 anos, aprendeu a tocar diversos instrumentos: "Modéstia à parte, eu dominava tudo em percussão". 

Em 1955, ele saiu da escola por achar que seus membros não valorizavam a juventude que estava ali trabalhando pela agremiação e, embora pensasse em ir para a Vai-Vai, amigos o convenceram a fundar a Unidos do Peruche, na região da Casa Verde, na zona norte de São Paulo, onde morava. 

Baluarte do Carnaval de SP

A Unidos do Peruche foi criada em 1956. Segundo Carlão, não foi fácil, porém, acumular dinheiro para entrar no Carnaval. "Íamos de segunda a segunda no centro da cidade com taças, e pedíamos dinheiro para comprar os tecidos. O Lamé era um tecido vagabundo, fino e transparente. Foi assim que começamos", relata.

"Falo com orgulho que a minha escola nasceu grande. Quando 'tiramos' a escola daqui já tinha todo o pessoal tarimbado. Em 1956 fomos para a avenida e ganhamos", diz, emocionado. De acordo com o sambista, o nível do "material humano" era alto, e, três anos depois, em 1959, a agremiação já estava no grupo especial, competindo com as melhores escolas de São Paulo.

Na militância por um Carnaval oficial, o fundador da Unidos do Peruche se uniu a outros sambistas e criou a Federação das Escolas de Samba e Cordões Carnavalescos do Estado de São Paulo. Após anos de luta e sendo ignorados pelos prefeitos que passavam pela capital, em 1968 eles conseguiram oficializar a festa na metrópole.

Acervo/Folhapress
Prefeito Faria Lima (dir.) no primeiro Carnaval oficial de São Paulo
"Foi uma surpresa quando José Vicente Faria Lima nos recebeu. E perguntou para a gente: 'Quanto vai me custar o Carnaval? Tragam-me um levantamento na próxima semana'", conta. 

O prefeito Faria Lima comentou, ainda, que saía na Mangueira, no Rio de Janeiro. O fundador da Unidos do Peruche desconfiou e brincou com o companheiro que estava ao lado, o Mala, da Acadêmicos do Tatuapé, que não acreditava que o prefeito era mangueirense.
 
Na semana seguinte, quando Faria Lima novamente abriu o gabinete para receber a nata do samba paulistano nos anos 1960, ele leu todos os documentos e deu seu veredito. "Quando eu vejo, ele fala: 'Vamos fazer carnaval em São Paulo'. Aquilo foi uma alegria, nós levantamos para agradecê-lo e, quando ele chegou perto de mim, enfiou a mão no bolso, tirou uma carteirinha da Mangueira e colocou na minha cara. Foi a maior vergonha que eu passei na minha vida no samba. Eu fiquei branco, preto, cor de rosa, vermelho. E o único que dava risada era o Mala", explica.
 
"O que fazemos não é Carnaval"  
 
Como militante do samba, Carlão também se tornou um crítico do Carnaval que é realizado nos moldes atuais. Os desfiles mudaram com o tempo, a televisão começou a transmitir a festa, e o encontro entre as escolas da cidade passou de uma festa para uma competição acirrada.
 
"Trabalhamos um ano inteirinho. Escolhemos o tema, resume-se tudo, é passado aos compositores, inicia-se a guerra do samba-enredo. Depois fazemos fantasias, alegorias, e assim vai. Tudo por 65 minutos. Esse tempo para passar 3 mil, 4 mil pessoas. Quando cruzamos o famigerado portão, fecham-nos rapidamente. E, por frações de minuto, perde-se o Carnaval. Isso é Carnaval? Não. Isso é uma competição entre nós, escolas de samba", critica o sambista.
 
Hoje, aos 86 anos, ele sente falta de mais bailes de rua e faz um apelo: "Onde estão os bailes infantis? Recordo-me que as meninas iam de odalisca, rainha, os meninos de Tarzan. Eles devem voltar, assim como as pessoas fantasiadas na rua. Se não é pelos desfiles do Anhembi, a gente não tinha ninguém fantasiado no Carnaval".

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