Osvaldinho da Cuíca defende o samba de SP: "Aqui não é o túmulo, tem muita coisa a ser descoberta"

Bárbara Forte
Do BOL, em São Paulo

Osvaldo Barro, o Osvaldinho da Cuíca, 76 anos, escolheu levar no nome o maior símbolo de sua carreira na música. O instrumento, que o acompanha desde a adolescência, foi responsável por dar voz ao paulistano da região do Bexiga, no centro da capital, na luta em defesa do samba paulista.

Contrariando Vinícius de Moraes que, em 1960, afirmou que São Paulo era o túmulo do samba, o instrumentista eleva a importância da terra da garoa na construção do ritmo brasileiro. "Aqui não é o túmulo, tem muita coisa soterrada do samba paulista, ainda por vir, por ser descoberta, autores impressionantes, pessoas maravilhosas, além dos que ainda estão no anonimato", afirma.

Na composição desse samba único, Osvaldinho exalta a mistura de culturas de São Paulo, a terra de todos os povos: "O porto de Santos [no litoral de São Paulo], um dos maiores e mais antigos da América Latina, era um lugar onde circulavam escravos africanos, europeus". Segundo o cuiqueiro, o samba, no coração, é africano. Mas, ao longo do tempo, houve uma mistura muito grande. "São Paulo, com um sotaque totalmente diferente, fez o seu samba", explica.

 

Paixão que vem de berço

Osvaldinho da Cuíca nasceu em 12 de fevereiro de 1940, no meio do Carnaval. "É uma paixão que veio de berço, na verdade de útero. Minha mãe estava assistindo ao desfile em Campos Elísios. Foi ali que eu nasci. Só deu tempo para ela descer o bairro, eu nasci quase dentro de uma cuíca", brinca.

A mãe do sambista separou-se muito cedo do marido e, como trabalhava de empregada doméstica, acabou deixando o filho com a avó do menino, em Poá, no interior de São Paulo. Com o samba rural aflorado na região e o som dos batuques sempre próximo – dentro de casa –, o amor pelo ritmo só cresceu.

Evelson de Freitas/BOL
Osvaldinho da Cuíca na infância, em Poá

"Em Poá havia o folclore e as batucadas. Aquilo me fascinava porque eu não tinha rádio, televisão. A música foi me fascinando assim, era bem primitiva. Do berço, eu já via minha avó cantar, ela pegava as colheres e batia no joelho. Eu aprendi com ela, batia no peito, e cantava com ela os cateretês (uma dança rural brasileira de origem indígena)".

Em 1948, o então garoto voltou para São Paulo e teve contato direto com os cordões carnavalescos, onde aprendeu a tocar e a desenvolver instrumentos, principalmente de percussão. "Naquela época não tinha muitas fábricas, a gente fazia tudo de forma artesanal".

"Em 1957 eu me tornei profissional de rádio, entrei para o Teatro Popular Brasileiro e ganhei, ali, o pseudônimo de Osvaldinho da Cuíca", revela.

Divisor de águas

Na década de 1960, Osvaldinho da Cuíca já havia consolidado sua carreira como instrumentista e tocava, diariamente, com personalidades do mundo da música, como Geraldo Filme, Ismael Silva e até Yoko Ono e os Rolling Stones. No meio de tantos encontros e parcerias, o grupo Demônios da Garoa cruzou a vida do sambista como um verdadeiro divisor de águas.

Evelson de Freitas/BOL
O Demônios da Garoa foi um dos pilares da trajetória de Osvaldinho da Cuíca

"Eu gravava com todo mundo, nem sabia com quem eu iria gravar. Um dia, eu estava gravando na Chantecler e a gravação era com o Demônios da Garoa. Eu gravei a música, era um compacto simples. De um lado era a música 'Mulher, Patrão e Cachaça', de Adoniran Barbosa e Osvaldo Molles. Do outro lado era 'Vila Esperança'. As duas músicas estouraram no Brasil", conta.

Segundo ele, a gravação ficou tão boa que, depois daquele dia, todo mundo queria saber quem era que comandava a cuíca: "Ela [a cuíca] chorava, gargalhava, falava. Eles foram obrigados a me contratar".

Osvaldinho teve três passagens pelo grupo e se orgulha de ter feito parte da história do Demônios da Garoa. "Foram muitos anos de alegria, segmentou mais a minha imagem no mundo artístico. Eu devo uma parcela desse sucesso relativo que eu tive ao Demônios, tenho que agradecer a eles sempre", afirma.

Amor de Carnaval

A Vai-Vai entrou na vida de Osvaldinho da Cuíca em 1972, quando ele foi convidado para trabalhar na transição do cordão para a escola de samba. "Ora, era um sonho meu, né? Eu era um sambista consagrado e tinha muita vivência no Rio de Janeiro, tinha amizade com a Velha Guarda da Mangueira, principalmente", diz.

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Osvaldinho da Cuíca criou até o símbolo da ala de compositores da Vai-Vai

À frente da nova função, o instrumentista criou o regulamento da escola, organizou os setores que já existiam e fundou alas novas, como a de compositores: "No cordão tocava só música de sucesso. Quando tinha um compositor na casa, se fazia samba-tema, e não samba-enredo. Então criamos a ala de compositores. Até o símbolo da ala fui eu que desenhei".

O sambista desfila até hoje na escola do coração, mas tem outra agremiação da qual participou da fundação, em 1975: a Gaviões da Fiel. Corintiano assumido, Osvaldinho fez o primeiro samba-enredo da escola e ajudou colegas sambistas que fizeram parte da Vai-Vai nos anos anteriores.

"A diretoria da Gaviões desfilava na Vai-Vai, sempre ao final, com aqueles bandeirões nas cores preto e branco. Em 1974, o samba-enredo era 'O Guarani', de minha autoria. Era só índio, como ia botar a bandeira do Corinthians lá? Não podia, né?", brinca o sambista, explicando o que motivou membros da Vai-Vai a ingressar em uma escola exclusiva do alvinegro.

Futuro do samba

Osvaldinho da Cuíca define o samba como a alegria do povo brasileiro, um castelo que teve a oportunidade de ajudar a construir, mas que ainda não está completo. "Eu sou apenas um tijolinho nisso. Acho que eu estou lutando por uma causa, que é o samba paulista. Tenho orgulho de fazer o nosso samba macarrônico, não tão explosivo quanto o carioca", afirma.

Mas ele alerta para a perda das verdadeiras origens no modo de fazer samba. "Houve uma mutação, uma migração do samba paulista para a célula-mãe carioca e, a partir de então, a influência do samba rural se perdeu. Raríssimas vezes algum compositor do Samba da Vela, do Pagode da 27, desses de periferia, onde realmente mora o samba – é a periferia que está fazendo samba, não escola de samba – faz uma música nos moldes do samba rural".

Questionado sobre o seu futuro no samba, Osvaldinho, que superou um câncer de garganta e dois AVCs (Acidente Vascular Cerebral), revela que a música foi essencial para sua recuperação. "É um tônico, a música é revigorante. Às vezes eu estou caindo aos pedaços, eu vou para o palco, parece que incorpora uma coisa que você, de imediato, consegue até superar".

E ainda menciona Noel Rosa: "Noel, quando estava morrendo, colocou a mão no criado-mudo e morreu assim, fazendo uma 'batucadinha'. No último suspiro dele, ele estava pensando no samba", finaliza. 

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