"O samba tem mais de 100 anos, mas é justo comemorar 2016", diz Martinho sobre o Centenário

Lígia Hipólito
Do BOL, no Rio de Janeiro

Aos 78 anos de vida, quase 50 de carreira, e um repertório que inicia sua trajetória com "Menina Moça", passando por clássicos como "O Pequeno Burguês" e "Mulheres" até hits atuais como "De Bem Com a Vida" -  de seu mais recente disco -, Martinho da Vila é um sambista que ajudou a alavancar a batucada dos morros ao status de música popular brasileira. No ano em que se comemora o Centenário do Samba, ele, que já gravou uma versão de "Pelo Telefone" - canção de Donga consagrada como primeiro registro do ritmo -, abriu as portas de sua casa para a reportagem do BOL e compartilhou suas experiências. 

"O samba tem mais de 100 anos. Não dá para se ter uma noção exata de quando ele foi criado. Essas datas são convencionais. Agora, é justo comemorar o 2016 porque foi o ano em que o samba foi registrado. É como uma criança que, depois que é registrada, vira gente. Mas a comemoração vai continuar, porque em '16' foi registrada a letra, mas o registro fonográfico foi em '17'. Então, o ano que vem todo ainda dá para se comemorar o samba", explica.

 

Na fala mansa e certeira, Martinho se revela um intelectual. Prova disso são os livros de autoria do sambista: desde a década de 80, ele se envereda pela literatura e já tem 13 títulos publicados, quase todos pautados pela temática do samba e da africanidade. As relações com a "mãe África", aliás, começaram com as visitas do cantor a Angola, em 1976, que, mais tarde, renderam a ele o título de embaixador cultural honorário do país. 

Desse vínculo, surgiram alguns projetos; um deles foi um encontro de músicos africanos, aqui no Brasil, chamado "Kizomba" - a palavra, originada na língua kinbundo, faz menção às danças dos negros que resistiram à escravidão e também foi o nome de um enredo, composto pelo sambista, que garantiu à escola de samba Vila Isabel a estreia no grupo especial, em 1988.  "Valeu, Zumbi!", diz a saudação inicial da música, agradecendo à luta do líder do Quilombo dos Palmares. 

Com tamanho resgate ancestral em seu trabalho, Martinho elucida: "O samba para o povo preto é um empoderamento. Porque ele tem uma origem nos batuques africanos e esses batuques vieram para cá com os nossos ancestrais. Onde havia um batuque, se originava o samba. Não dá para dizer que o samba foi criado em um lugar específico... Há uma dispolaridade entre o samba que nasceu no Rio ou na Bahia. Mas ele nasceu em vários lugares ao mesmo tempo, ou em tempos diferentes. O samba pode ter surgido em São Paulo, em Pernambuco... São Paulo tem uns ritmos bem próximos: cururu, catiras - que são batuques. Aí, lá no Maranhão, tem o tambor de crioula. Na Bahia e no Rio também pode ter surgido, claro. Obviamente, pode ter surgido até no Rio Grande do Sul, porque para lá também o nosso pessoal foi".

Devagarinho, ele chegou lá...

Arquivo/Folhapress
Martinho da Vila no início da carreira

Nascido em Duas Barras, cidade da região serrana do Rio de Janeiro, Martinho José Ferreira se tornou cidadão do samba na década de 60, quando foi rebatizado como Martinho da Vila, vocativo que ganhou por conta de seu envolvimento com a icônica Vila Isabel, escola de samba carioca, na qual iniciou seus passos.

Da Vila para o mundo, o sambista soltou a voz em rede nacional pela primeira vez em 1967, no 3º Festival da Record, com a canção "Menina Moça". Mas foi somente no ano seguinte, na quarta edição do mesmo festival, que ele emplacou seu primeiro sucesso - "Casa de Bamba".

"Casa de bamba é a casa de quase todo brasileiro que gosta mesmo de samba, da coisa popular. É o samba de fundo de quintal. Tem até o grupo Fundo de Quintal. Na época, havia casas com quintal. Hoje, não tem mais casa com quintal, praticamente. E, nos fins de semana, as famílias se reuniam, batucavam, cantavam samba, faziam churrasco, aquele domingo bacana", conta.

Arquivo pessoal
Martinho da Vila e Donga, autor do samba "Pelo Telefone"
Dos anos 60 para cá, Martinho caiu no gosto do povo e se consolidou como músico. "Gravei o primeiro disco - aquele do chapeuzinho - que tem muito sucesso que eu tenho que cantar até hoje. Era um disco simples feito na base do cavaquinho, violão e percussão pequena, miúda. Depois desse disco, eu fiz um todo autoral que foi o meu segundo disco, o 'Laiá, Laiá', em 70. Esse eu já mudei, botei orquestração, botei violino, botei tudo. Depois, eu passei a fazer discos todos conceituais. Eu penso em um formato, em uma ideia e as músicas giram em torno desse conceito", explica.

Entre um disco e outro, o sambista lembra de uma história curiosa: "O samba 'Pelo Telefone' - do Donga -  virou um grande sucesso em minha voz, quando eu gravei um disco chamado 'Origem - Pelo Telefone'. Então, o pessoal falava: 'O Martinho fez um samba que é uma maravilha'. E eu tinha que explicar: 'Não, esse samba aí foi o primeiro samba gravado no Brasil…'"

Martinho, De Bem Com a Vida

Em agosto de 2016, Martinho lançou seu primeiro álbum com músicas inéditas em nove anos: "De Bem Com a Vida". "Os discos sempre refletem meu estado de espírito, e esse não é diferente, ele nasce em um momento brasileiro muito confuso. Tem a música homônima ao título do disco, que tem um recado. É um samba falado, que eu dialogo com o Criolo, um artista importante aí também que ainda está jovem", diz o sambista.

Além de Criolo, o cantor também apresenta parcerias com João Donato, Jorge Mautner, Arthur Maia e Geraldo Carneiro. Outras novidades ficam por conta de uma versão do clássico "Disritmia"  - às avessas - a faixa "Disritmou" e ainda uma canção erótica, "Samba Sem Letra".

Após 100 anos (ou mais), o samba continua?

Entusiasta do samba de qualidade, Martinho manda o recado para as novas gerações: "Nós, que fazemos samba, música de maneira geral, somos muito vistos pelos mais jovens que querem seguir esse caminho, e o legado que a gente deixa é o cuidado com a poesia, com a letra, com a riqueza melódica, com a mensagem".    

"O samba continua sempre, porque todas as grandes estrelas da música gravam samba. Qualquer artista que você imaginar por aí já cantou samba. Isso faz o samba ser permanente. Tem uma frase do Nelson Sargento que diz: 'Samba agoniza, mas não morre. Alguém sempre lhe socorre antes do suspiro verdadeiro'. E ele fala até: 'Martinho, fiz essa música inspirado em você. Quando você surgiu, o samba estava totalmente afastado dos meios em geral, da mídia, e a sua chegada incentivou muita gente a fazer samba'. E eu falo pra ele: 'Nelson, eu discordo um pouquinho. Agradeço a homenagem, mas discordo um pouco. Porque o samba não morre nem agoniza, ele está sempre por aí. Quando surge um movimento musical muito grande e toma os espaços todos, aparentemente toma, mas não toma, não. Porque a frase brasileira diz que tudo termina em samba e termina mesmo'."

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