Lenda viva do samba, Nelson Sargento defende que o ritmo continua agonizando, mas não vai morrer

Bárbara Forte
Do BOL, em São Paulo

Nos versos "Negro, forte, destemido/Foi duramente perseguido", da canção "Agoniza, mas não morre", de 1978, o sambista Nelson Sargento, 92, quis fazer uma crítica à perseguição da polícia ao samba e à invasão de ritmos estrangeiros nas rádios e na televisão. O músico só não imaginava que, hoje, a letra permaneceria tão atual.

"Era para os compositores da época não se entregarem. Sempre fizeram samba. Correndo ou não da polícia, eles faziam samba. E quando houve uma invasão de música estrangeira, o 'Ieieiê', bolero, tango, o samba ficou naquela balança", explica o sambista, que entende que novas vertentes também colocam o ritmo, agora, em uma situação parecida com a de quase 40 anos atrás.

"Investem muito nos ritmos que estão em volta do samba. O samba reggae, o samba pop, samba não sei mais o quê. Mas isso não perturba, porque eu chamo de movimentos. Movimentos passam, já o samba não, porque o samba é uma instituição. Não vai passar nunca".

 

Presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira, Nelson Sargento esbanja vitalidade na militância da música brasileira e até presenteia o público com apresentações. Numa feijoada em comemoração aos seus 92 anos, realizada em São Paulo, o sambista cantou e encantou (assista ao vídeo). E ele lembra que o samba, embora tenha sido registrado pela primeira vez há 100 anos, já corria pelas nossas veias havia muito tempo. "Cem anos é muito pouco", acredita.

Samba português

Carioca da gema, Nelson Sargento teve o primeiro contato com o samba, por incrível que pareça, ao lado de um português. Sua mãe, Rosa Maria da Conceição, casou-se com Alfredo Português após a morte do pai de Nelson, Olímpio José de Mattos, e acabou se mudando com o então menino para o Morro do Salgueiro e, mais tarde, para o Morro da Mangueira.

O cantor e compositor tinha 12 anos. "Eu comecei a ouvir samba na voz de Cartola, Carlos Cachaça, Geraldo Babão, Carlos Pereira, Aloísio Dias, porque minha mãe foi morar com um português que fazia samba. E esse pessoal frequentava a casa do Alfredo. Eu via eles cantarem samba, discutir", afirma.

Embora tivesse os bambas na sala de casa com frequência, Nelson só foi entender a oportunidade que teve após passar pelo Exército, em 1945, de onde surgiu o sobrenome Sargento. "Em 1948, o Alfredo fez um samba-enredo para a Mangueira e eu musiquei. Foi meu primeiro contato real com o samba", diz. "Apologia ao Mestre", que se tornou o samba da Mangueira em 1949, venceu o Carnaval do Rio de Janeiro.

Além desse, outros dois sambas feitos pelo sambista e seu pai adotivo conquistaram o Carnaval: "Plano SALTE - Saúde, Lavoura, Transporte e Educação", em 1950, e "Rio de Janeiro de Ontem e Hoje", em 1954. Ao lado de Jamelão, Nelson Sargento ainda conquistou um vice-campeonato pela Mangueira com o famoso "Cântico à Natureza".

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Nelson Sargento, ao fundo, do lado esquerdo, com elenco do musical "Rosa de Ouro", que o projetou na carreira de sambista
Nelson Sargento é cantor, compositor, artista plástico, escritor e ator. Nos anos 1960, ele passou pelo musical "Rosa de Ouro", o que o projetou na imprensa da época e consolidou sua carreira. "Eu participei mesmo com muito entusiasmo. Foi um acontecimento muito bom para mim porque eu comecei a ser projetado na imprensa. E quando a peça acabou, eu, com os companheiros Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros, criamos um conjunto chamado 'Os Cinco Crioulos'".

O grupo além de abrir as portas para o mangueirense no mundo do samba, contribuiu para novas parcerias, como Paulinho da Viola e Zé Keti, que integraram não apenas "Os Cinco Crioulos", mas também "A Voz do Morro" ao lado de Sargento.

O músico revela, ainda, que não gravou muitos discos, mas foi um campeão de participações: "O 'Rosa de Ouro', 'Os Cinco Crioulos' e o 'Voz do Morro' foram algumas delas. Sozinho eu fiz pouca coisa", diz Nelson, que chegou a fazer shows em muitos países, como Japão, Dinamarca, Estônia e Noruega.

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Imagem mostra Nelson Sargento durante atuação em curta-metragem

No campo da atuação, o sambista diz ter vivido sua maior emoção da carreira. Em 1997, o curta-metragem "Nelson Sargento no Morro da Mangueira", de Estevão Ciavatta, rendeu um prêmio especial. "Me valeu o maior prêmio do cinema brasileiro, que é o Kikito", revela, referindo-se às categorias Melhor Montagem e Trilha Sonora. 

Se, até aquele momento, ele não sabia se era um ator de verdade, a atriz Fernanda Montenegro o consagrou com um belo elogio: "Conversa vai, conversa vem, ela me disse uma frase que eu não desmaiei porque tenho um santo forte. 'Nelson, você sabia que era ator?'". 

Quando questionado sobre suas realizações, Nelson Sargento é enfático. "A resposta que eu dou é 'não'. Eu não estou realizado. Porque quando se está realizado, a gente não faz mais nada. Vai fazer mais o quê?  Deita na cama e põe-se a dormir. Mas não é o meu caso. E o que eu procuro fazer é aprimorar mais tudo aquilo que eu sei fazer. O samba, a arte. Estou esperando que alguém me convide para participar de um filme, nem que seja uma pontinha. Mas eu estou pronto para fazê-lo", afirma, rindo.

Resgate do passado e promessa de futuro

Quando o assunto é a raiz do samba, Nelson Sargento volta a falar que, embora o centenário seja comemorado neste ano, os batuques correm nas veias do povo brasileiro há mais tempo: "Cem anos é pouco".

"O samba veio da Bahia, o samba de roda. No Rio, ele tomou um novo andamento e transmitiu para o resto do Brasil. Todos os estados hoje têm escolas de samba, e boas. Mas oriundos de onde? Do Rio de Janeiro", revela Nelson ao traçar o caminho de progresso do samba. Para ele, a capital fluminense teve uma participação importante por conta das tias do samba; foram elas que protegeram e ampliaram os encontros para se fazer samba no Rio. "A casa da Tia Ciata foi um bom princípio, impôs condições ao samba. Porque ali o samba não era perseguido", diz.

Douglas Shineidr/UOL
Nelson Sargento durante desfile da Mangueira em 2016

Atualmente, o sambista vê grandes dificuldades, principalmente no Carnaval, porque muito do que se defendia e lutava na época das tias mudou. "As escolas de samba têm um problema muito grande, problema de gente. Porque você passar cinco mil pessoas naquela passarela em 80 minutos é realmente um absurdo, embora eu faça parte deste absurdo. Mas são mudanças que aconteceriam, pois a alta sociedade entrou nas escolas. Lentamente, mas entrou. Devagar e sempre, como diz o ditado".

A descaracterização da festa do Carnaval, que, antes, era um objeto de resistência do negro, levanta, por fim, um alerta de Nelson Sargento: "Eu cheguei à conclusão de uma coisa: quando você quer acabar com um negócio, não persegue. Se infiltra. E você, infiltrado, vai lentamente mudando. Quando você espantar, não está mais na sua mão", finaliza. 

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