O que é que a Bahia tem? Tem Dalva Damiana de Freitas, "Doutora do samba"!

Fernanda Fadel
do BOL, em Cachoeira (BA)

"Doutora Honoris Causa". Quando a baiana Dalva Damiana de Freitas, uma senhora de 89 anos de pele negra, sobrancelhas esbranquiçadas e sorriso vívido, foi assim nomeada pela UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano), ela não entendeu muito bem o que lhe acontecia.

"Foi uma surpresa. Vim a saber que ia ganhar um título de uma universidade e fiquei envergonhada com as minhas palavras erradas e o meu pouco estudo. Pensei: 'Ô, meu Deus, o que eu vou falar? Eu que nunca fui num ginásio ou numa universidade!'", contou Dona Dalva, que, em 2012, foi prestigiada como "Doutora Honoris Causa" por seu importante papel na difusão e preservação do samba de roda baiano.

Em pouco tempo de conversa, no entanto, já é possível perceber por que Dona Dalva é merecedora desse título de honra: "Eu inflamei essa verdade: samba de roda. Se não fosse eu, as minhas ideias, as minhas palavras ou certas ou erradas, a minha sabedoria pouca, o samba já tinha acabado por aqui".

Personagem-chave no resgate da história do Centenário do Samba, ela reavivou a memória para o especial do BOL e reconstruiu os passos que deu dentro da cultura brasileira que a levaram a ser celebrada como "Doutora do samba".

Filha de mãe charuteira e pai sapateiro, Dalva Damiana de Freitas nasceu em 1927 na cidade de Cachoeira, situada a 120 km de Salvador, na Bahia. Mais velha entre oito irmãos, começou a trabalhar cedo para ajudar no sustento da família. Na fábrica de charutos Suerdieck, em Maragogipe (BA), comandada por imigrantes alemães, ficou desde antes da maioridade até a aposentadoria. E foi lá entre os salões de bolear fumos, abarrotados de mulheres operárias, que Dalva começou a sambar.

Compôs a primeira letra de samba durante um episódio que aconteceu na "hora da merenda" da fábrica fumageira. "A Dona Eulina levava merenda pra gente e teve um dia que ela levou jiló mabaço. Aí ela chegou e dividiu, todo mundo deu uma talhadinha e quando chegou na minha hora, ela disse: 'Tome, Dalva, coma'. E eu não queria, não. Ela insistiu e quando eu peguei, veio a composição num tomado só: 'Venha cá como quiser ô Jiló! Jiló, ô, Jiló. Como quiser venha cá, ô, Jiló! Jiló, ô, Jiló. Eu plantei Jiló. Não pegou. A chuva caiu, rebentou. Cortei miudinho, botei na panela. Pensei que era jiló e jiló é berinjela'", cantarola.

João Alvarez/BOL
Dalva trabalhou até a aposentadoria como operária da fábrica de charutos Suerdieck

As colegas charuteiras ficaram impressionadas com a canção: "Elas falaram: 'Óia', que num instante ela já fez um samba, como é que a gente pode ficar triste com ela?", conta Dalva, que tem apenas o ensino primário como formação.

A cantoria era companhia infalível da charuteira Dalva Damiana de Freitas. E foi com a avó lavadeira, de origem africana, que aprendeu a musicar a vida desde a infância. "Eu saía do colégio e ia levar a comidinha dela lá no rio no Caquende [um bairro de Cachoeira], aí eu ficava lá entretida pra não correr rua, né? E ela ficava lavando as roupinhas, cantando e eu aprendi a cantar com ela. A minha liberdade de menina foi essa, porque eu não tinha prazer de ir para a porta das pessoas brincar com gente nenhuma. Ficava mais na ponte com a minha avó e com as minhas bonecas", explica.

A brincadeira virou samba de roda na rua

As bonecas de Dalva eram feitas de gravetos e papel, os membros de pedacinhos de madeira e a roupa apenas de uma folha. "Eu fazia um sambinha com minhas bonecas. Colocava elas 'tudo arrodeada' pra sambar uma a uma, fazia até a umbigada [um passo de dança característico do samba de roda] delas", recorda, aos 89 anos.

Dos encantos da infância para a rigidez da vida adulta, Dalva Damiana de Freitas conduziu o samba intuitivo entre as humildes bonecas para as ruas com as amigas baianas. Em 1961, a compositora de "Jiló" levou o Samba de Roda Suerdieck, criado por ela com o nome em homenagem à fabrica onde trabalhava, para os cachoeiranos. Surgiu um convite dos dirigentes da fábrica de fumo para uma apresentação na tradicional festa da Nossa Senhora da Ajuda.

"Eu disse: 'Gente, vamos fazer um samba de roda'. Naquele tempo, o samba era na casa de vizinho, acabávamos de rezar e fazíamos um sambinha enquanto se tomava um arroz ou se comia um caruru. E era isso. Minhas colegas não sabiam o que era o samba de roda, ninguém sabia, então eu achei que devia fazer outro grupo, porque samba mesmo eu já estava fazendo com as minhas bonecas", pontua a sambadeira.

João Alvarez/BOL
O primeiro samba de roda de Dalva foi feito com suas bonequinhas de graveto e papel
 A Roda de Samba Suerdieck passou a ser presença constante nas comemorações religiosas de Cachoeira. Uma das mais importantes é a festa anual da Nossa Senhora da Boa Morte, celebrada pela Irmandade da Boa Morte, uma confraria religiosa afro-brasileira formada, atualmente, por 23 mulheres com mais de 50 anos de idade, todas elas descendentes de escravos. Ao final dos rituais, grupos de samba de roda embalam a cidade.

"A idade vai chegando e a saúde vai pifando. Eu fico ruim, fico triste, mas faço força e vou. A viola chamou, 'os timbau tocou', o pandeiro rufou, aí eu vou lá e dou o meu recado. Porque quando o samba de Dona Dalva [o grupo Suerdieck] vai passar, a rua se enche de gente. Nego vem de qualquer maneira, pessoas vêm de fora para apreciar o samba. E eu fico toda gaiatinha no meio do povo, me sentindo feliz, me sentindo alegre. Nem toda menina de 15 anos vai com a alegria que eu tenho", conta.

Arquivo pessoal
Dalva com garota integrante da roda-mirim Flor do Dia
 Dalva Damiana de Freitas imprimiu duas características singulares no samba de roda Suerdieck: o uso dos trajes das baianas tradicionais (composto por saia, camisu - blusa branca e enfeitado com rendas e bordados - bata, pano da costa e torço) para as mulheres e o uso de pequenas tábuas de madeira utilizadas produção de charutos para compor a percussão do grupo.

"O samba é uma sobrevivência de baianas e de tocadores. Tem gente que não quer que a baiana faça parte dos grupos, querem o samba só pra eles. Também não pode ser qualquer baiana, tem que ser a tradicional, a baiana tem que manter a tradição dela. A baiana não pode usar lábios pintados, não pode usar pintura [maquiagem], torço diferente. Não pode sambar com sapato alto, não é dança de salão. Tem que sambar cada uma com seu chinelinho, à vontade, brincando com suas sainhas, com a imitação mesmo da baiana", conta a criadora, que se inspirou nos trajes da avó paterna para incluir o figurino em seu samba de roda. 

A atuação de Dalva se estendeu na criação de outros grupos de samba de roda em Cachoeira, ao longo de sua caminhada na cultura baiana: Terno de Reis Esperança da Paz, Terno das Baianas do Acarajé, Quadrilha da Terceira Idade e o Samba de Roda Mirim Flor do Dia. Contando com a coordenação de outros sambadores, os grupos existem até hoje. 

"É pra não deixar o samba morrer de jeito nenhum. O samba é a segurança da vida, a segurança da cultura. E a cultura é a maior riqueza que nós temos. Eu quero que o povo continue fazendo a preservação do samba, que é um patrimônio que nós temos", diz Dalva, que ressalta o grupo formado por crianças como o mais importante nessa missão de eternizar o samba de roda baiano. "O Flor do Dia é o sustento do samba de roda adulto. Essa preservação não é só para mim, como também para os que vêm chegando", fala a octogenária.

Arquivo pessoal
Dalva Damiana de Freitas recebe título Doutora Honoris Causa pela UFRB na Bahia
Doutora, sim, senhora!

Há 4 anos, quando recebeu o título de Doutora da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Dalva Damiana de Freitas estranhou a quantidade de gente que aparecia em sua casa para cumprimentá-la. "Eu não sabia que as minhas coisas eram reconhecidas, então me senti muito feliz em minha vida", relembra a sambadeira.
 
No dia 22 de novembro de 2012, Dalva foi, oficialmente, intitulada Doutora Honoris Causa pela URFB por conta de sua contribuição ao samba de roda baiano. Nesse tipo de samba, os integrantes se dispõem em círculo para tocar, preferencialmente, pandeiro, viola, atabaques e prato e faca. O ritmo é acompanhado de palmas, e o passo de dança é o miudinho (um sapatear sem tirar os pés do chão). O ritmo vem das tradições dos africanos escravizados que vieram ao Brasil. O samba de roda do Recôncavo Baiano foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2004 e proclamado Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2005.
 
Na cerimônia de entrega do título, saudada pelo reitor e equipe de dirigentes da UFRB, por baianas a caráter, familiares e admiradores, Dalva proferiu: "A partir de hoje, eu me chamo Dalva Damiana de Freitas Doutora Honoris Causa", e as palmas foram muitas.
 
O título Honoris Causa é um reconhecimento dado por universidades a personalidades que se destacam nas artes, ciências, filosofia, letras, promoção da paz e causas humanitárias por sua boa reputação, virtude, mérito ou ações de serviço que transcendam famílias, pessoas ou instituições. Dona Dalva é a primeira mulher de Cachoeira com tal título. Também é a primeira mulher negra do país com essa honraria de reconhecimento. 
 
Uma casa para chamar de sua
 
A casa de Samba de Roda Dona Dalva foi inaugurada no dia 22 de novembro de 2009 na Rua Ana Néri, em Cachoeira, Bahia. O espaço é utilizado para as apresentações do grupo Suerdieck e para outros grupos de samba de roda. O local também é utilizado para palestras, oficinas e exposições. 
 
Dalva lamenta que ainda não tenha uma casa própria para abrigar o Samba de Roda Dona Dalva. Atualmente, o aluguel é pago por meio de um contrato com a Prefeitura de Cachoeira. Na sucessão de prefeitos, a sambadeira não sabe o que irá acontecer com o acordo. "Só vou me sentir realizada quando tiver o meu espaço para agilizar a alegria, pra comunidade chegar junto, para as pessoas participarem, sambarem, brincarem, pra se ter alegria. Com um lugar apropriado, todo mundo valoriza a gente", conclui. 
 
A luz de Cachoeira

João Alvarez/BOL
Moradores de Cahoeira passam pela janela de Dona Dalva para pedir benção à sambadeira
Em sua casinha colonial de amplas janelas de madeira onde adentra o sol febril da cidade, não é raro vê-la no parapeito da sala dando bênçãos a quem passa por sua rua e lhe pede a graça: "'Bença', Dona Dalva". E vão se embora satisfeitos com o toque na testa da venerada baiana.

"Eu digo sim, quando Deus me chamar, eu só levo alegria do que fiz. Enquanto ele me der vida, só perco a alegria depois de morta. Ainda levo alegria e deixo o povo alegre", celebra Dalva Damiana de Freitas. 

 
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