"A música vem quando a gente menos espera", conta Monarco, presidente de honra da Portela

Anderson Baltar
do BOL, no Rio

Aos 83 anos, Monarco, presidente de honra da Portela, representa o mais legítimo herdeiro do legado de elegância, dignidade e cordialidade de Paulo da Portela, fundador da escola e um dos grandes líderes dos sambistas nos anos 30 e 40, quando as escolas de samba estavam em formação e o sambista era discriminado pela sociedade e perseguido pela polícia. Comandando a azul e branca, Paulo exigia que os componentes andassem sempre alinhados e se portassem de forma respeitosa quando fossem se apresentar.

A partir do exemplo do fundador da Portela, a turma dos morros e subúrbios conquistou a sociedade e teve liberdade para transformar o samba em uma das principais tradições brasileiras. E Monarco personifica essa trajetória de luta e afirmação do samba como patrimônio cultural.
 
Com 15 álbuns lançados e totalmente autodidata, Monarco já teve suas canções gravadas por grandes sambistas e afirma que a inspiração para compor pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento. "Não existe essa coisa de ir pro alto do Corcovado se inspirar. A música vem quando a gente menos espera", conta. 
 
 
A história de um de seus maiores sucessos ilustra o que ele diz. Certa vez, Monarco tinha feito um samba-enredo para a agremiação do morro do Jacarezinho, no Rio, mas, em sua opinião, a melodia estava muito triste e, por isso, desistiu de apresentar na escola. A música, porém, não saiu de sua cabeça.
 
"Um dia estava no carro com o Ratinho, de Pilares, que era meu parceiro. Íamos no fusca dele e, do nada, surgiu a letra da primeira parte, que casava com a melodia. No centro da Cidade, o Ratinho completou o samba." Nascia ali "Coração em Desalinho". Gravada por Zeca Pagodinho, tornou-se sucesso em todo o país e já foi regravada por Maria Rita, tendo sido trilha de novela.
 
Em conversa com a reportagem do BOL para o especial sobre o Centenário do Samba, o sambista relembrou o difícil percurso até alcançar o sucesso e poder se dedicar à escola do coração.
 
Paixão que vem da infância
 
Nascido no subúrbio de Cavalcante (RJ) em 1933, o menino Hildemar Diniz logo se mudaria para Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Desde criança era apaixonado pelos sambas que chegavam através do rádio, especialmente pelas composições de Noel Rosa na voz de Araci de Almeida. Com os meninos da rua, acompanhava com interesse os blocos de Carnaval e, pelas ruas esburacadas, ouvia, encantado, histórias dos grandes sambistas. Quando tinha sete anos, ganhou o apelido que o acompanharia para o resto da vida. "Estávamos brincando na rua quando chegou um menino com um gibi que tinha um personagem chamado Monarco. Eu comecei a rir do nome e ele falou: 'Tá rindo de que, Monarco?' Todo mundo começou a me chamar assim e o apelido pegou", relembra o sambista.

Reprodução
Paulo da Portela foi uma inspiração para Monarco

Aos oito anos, compôs seu primeiro samba: "Crioulinho Sabu", em homenagem a um de seus amigos de infância. "Ele era órfão de pai e mãe e vivia de esmolas. Mas era um garoto muito bom, não fazia mal a ninguém. Vivíamos juntos brincando, eu, ele e outro menino, chamado Luiz. Num belo dia, compus: 'A Liga da Defesa Nacional/Vai contratar o crioulinho Sabu/Para cantar lá no Rio Grande do Sul/Também vai contratar Monarco e Luiz/A garotada vai pedir bis'. A música fez sucesso com a meninada", recorda-se. Recentemente, quando lançou um álbum em homenagem aos seus 80 anos, a música foi finalmente registrada. "Meu filho Mauro Diniz me convenceu a colocar no disco porque ela tem um lado inocente, verdadeiro, do meu dom de compor. Fez um arranjo amaxixado e ficou bonito", conta.
 
O destino de Monarco foi definitivamente selado aos 10 anos de idade, quando se mudou para o bairro de Oswaldo Cruz, onde nasceu a Portela. "Eu sabia que lá era terra de samba, de tanto ouvir 'Palpite Infeliz', do Noel. Ouvia muitas histórias de Paulo da Portela e minha primeira decepção ao lá chegar foi saber que ele não estava mais na escola". O grande líder portelense havia se desentendido com a diretoria da escola no desfile de 1941 e se transferido para a pequena Lira do Amor, do vizinho bairro de Bento Ribeiro. Mesmo assim, Monarco e seus novos amigos sempre corriam para as batalhas de confete e rodas de samba para ver o mítico sambista em atuação. As reminiscências desse tempo estão na letra de "Passado de Glória", um de seus clássicos.
 
Aos poucos, foi chegando à escola de samba. De 1946 a 1950, sem dinheiro para comprar fantasia, participou do desfile segurando a corda – em tempos pré-Sambódromo, as escolas coibiam a invasão de seus cortejos com uma corda em volta de seus componentes. Em 1951, pela primeira vez, desfilou em ala, trajado com um terno de cambraia e chapéu. "Meu sonho se realizava", derrete-se.
 
Muitas composições, mas nenhum samba-enredo
 
Monarco se engajou na Portela com relativa facilidade. Porém, na ala de compositores não era tão fácil. Tímido, ele apenas observava a performance de grandes nomes, como João da Gente, Alvaiade, Chico Santana e Manacéa. Tudo mudou no dia em que ele compôs um samba chamado "Retumbante Vitória" e o mostrou para um amigo, que o incentivou a levar a obra para os compositores portelenses, reunidos no bar de Nozinho, irmão de Natal, o lendário comandante da escola entre as décadas de 1940 e 1970. 

Julio Guimarães/BOL
Elegantemente vestido com as cores de sua escola do coração, Monarco recebeu a reportagem do BOL em sua sala no barracão da Portela, no Rio de Janeiro
"Cheguei no bar ressabiado. Aí esse amigo, o Denilson, chamou o João da Gente, que era uma das maiores vozes da Portela. Ele chegou e pediu para eu cantar o samba. Chamou o Alvaiade, que veio com o cavaquinho para ver a tonalidade. Quando comecei a cantar, João da Gente falou: 'Que coisa bonita'. E todo mundo se acertou com o samba."
 
Logo em seguida, Natal passou pelo bar e mandou o jovem Monarco cantar na quadra no ensaio. Resultado: "Retumbante Vitória" acabou virando o samba de "esquenta" da Portela no Carnaval de 1952. "Foi uma emoção indescritível ver o meu samba na avenida, com as pastoras cantando e as baianas rodando. Jamais me esquecerei", relata Monarco.
 
Com o passar do tempo, Monarco passou a ser parceiro dos compositores que tanto admirava e também se enturmou com os jovens talentos que chegaram à escola, como Candeia, Waldir 59 e Picolino. Uma coleção imensa de sambas de terreiro foi se formando. Porém o compositor nunca conseguiu emplacar um samba-enredo na escola de coração. "Eu só estudei até o terceiro ano primário; não tinha condição de fazer sambas com letras tão rebuscadas e usar termos como 'incomensurável séquito' ou 'vultos notáveis'. Além disso, a ala de compositores era boa demais. Quando eu chegava com algo, eles já tinha feito sambas muito melhores. Naquela época havia o cavalheirismo de tirar o samba da disputa, ninguém forçava a barra para ganhar a disputa de samba", conta.
 
Eram tempos românticos, em que os sambas de terreiro dificilmente atravessavam as fronteiras das quadras e, por outro lado, as escolas não cantavam sambas que estouravam no rádio. "Os grandes cantores já tinham seus compositores certos e ninguém vinha nas escolas procurar música. Jamelão tentou gravar um samba meu e a gravadora negou. Ele até brincou comigo dizendo que eu tinha que fazer iê-iê-iê", diverte-se.
 
Luta até conseguir viver de samba

Julio Guimarães/BOL
"Foi uma emoção indescritível ver o meu samba na avenida, com as pastoras cantando e as baianas rodando", diz Monarco sobre estreia na Portela (1952)

Para sobreviver, Monarco fez de tudo. Seu primeiro emprego foi na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde conviveu com grandes nomes do jornalismo da época e com Villa Lobos, que jogava bilhar francês no salão da entidade. "Eu adorava trabalhar lá, mas tudo acabou no dia em que o presidente da ABI, o Herbert Moses, chegava com o presidente dos Estados Unidos, o Truman. Eles me encontraram fazendo um bloco de carnaval com um amigo no salão que deveríamos estar limpando. Fui demitido e fiquei bastante triste. Tanto que, por muitos anos, eu escondia que era sambista nos empregos que tive".
 
Monarco também vendeu peixe na feira e mudou-se para o morro do Jacarezinho, onde teve participação na escola de samba da região, recém-fundada e que chegaria em poucos anos ao Primeiro Grupo. Na Unidos do Jacarezinho, Monarco conseguiu emplacar alguns sambas-enredo, o que, segundo ele, despertava o ciúme de Natal da Portela. "Lá você faz samba bom, aqui, só porcaria", queixou-se o comandante portelense, de acordo com Monarco.
 
A sorte de Monarco começaria a mudar no final dos anos 60, quando, por ideia de Paulinho da Viola, o grupo da Velha Guarda da Portela foi formado. Em seguida, "Lenço", de autoria de Monarco, foi gravada por Paulinho e fez sucesso. Ao ouvir a música na Rádio Jornal do Brasil, Monarco sentiu-se emocionado e correu para a redação do diário para agradecer a execução. Procurou pelo jornalista Juvenal Portela, que conhecia de frequentar as quadras das escolas. O sambista saiu do antigo prédio do jornal, na Avenida Rio Branco, com um emprego de faxineiro na gráfica, que ficava na sede que estava sendo construída, na Avenida Brasil.
 
De faxineiro, Monarco virou guardador de carros e fez amizade com vários jornalistas, como José Ramos Tinhorão, Oldemário Touguinhó e Sérgio Noronha. Ali, ele não precisava esconder quem era. Afinal, o Rio de Janeiro já começava a conhecer quem era Monarco. O sucesso veio com a gravação de "Tudo menos amor", por Martinho da Vila. Gravada no disco "Origens" (1973), a música tornou-se sucesso após uma apresentação do sambista da Vila Isabel no programa de Flávio Cavalcante. 

Felipe Assumpção/AgNews
Monarco recebe os cumprimentos de Zeca Pagodinho durante show em São Paulo, em 2014. Zeca gravou um dos grandes sucessos de Monarco, "Coração em Desalinho"

"Ele pediu pro Martinho cantar a música, que estava escondidinha no disco. O sucesso foi tamanho que a gravadora passou a trabalhar a canção e o disco vendeu muito", conta o sambista. Com o dinheiro dos direitos autorais, Monarco largou o emprego de guardador de carro e passou a viver de samba. Registrando seus sambas de terreiro compostos por tantos anos, teve músicas gravadas por Clara Nunes e Roberto Ribeiro e lançou 15 álbuns, desde solo até trabalhos com a Velha Guarda da Portela.
 
Rodando o país com a Velha Guarda, Monarco participa ativamente dos preparativos da Portela para o Carnaval 2017. A escola, que viveu recentemente a perda do presidente Marcos Falcon, assassinado em setembro de 2016, tem no compositor um importante líder, que aceitou assumir o cargo de presidente de honra em 2013. 
 
"Fui convidado por esse grupo que administra a escola, um pessoal jovem, mas que sabe o que fazer e que vai levar a Portela ao campeonato novamente. Já era para ter sido no ano passado, mas os jurados não quiseram", lamenta. E, do alto de quase 80 anos de samba, comemora a importância que o gênero conseguiu na cultura brasileira: "Nosso samba foi tão perseguido, discriminado e hoje é patrimônio cultural do nosso país. Não forçamos a barra para sermos lembrados, sempre somos chamados para tudo, como fomos na Olimpíada. Tenho muito orgulho de ter participado dessa história".
 
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