"O samba está nessa África que mora em mim. Não é uma escolha, é uma herança", exalta Mariene de Castro

Anderson Baltar
do BOL, no Rio de Janeiro

Seguindo a trilha das tias ancestrais, que levaram os batuques da Bahia para o Rio de Janeiro e contribuíram para a afirmação do samba e dos cultos afro-brasileiros na Cidade Maravilhosa, Mariene de Castro é uma das mais importantes vozes da nova geração do samba.

Nascida em Salvador há 38 anos, radicada no Rio há quatro, a cantora consegue unir em seu repertório diferentes matizes do gênero, lançando luz em sambas de roda pouco conhecidos, além de dar nova roupagem a clássicos.

"Cantar samba para mim é uma missão de vida. Fui escolhida para espalhar esse legado por todos os cantos e gerações", afirma a cantora. "O samba está nessa ancestralidade que eu trago. Está nessa África que mora em mim. Está nos antepassados que me deram de herança. O samba não é uma escolha minha; é uma herança", completa.

Voz rara desde a adolescência

Tudo aconteceu muito rapidamente na vida da menina baiana que, desde pequena, vivia em um ambiente povoado pela musicalidade. A avó tocava piano e era fã de Dalva de Oliveira. O avô a presenteava com discos de Luiz Gonzaga. Os tios eram instrumentistas e, nas reuniões de família, a cantoria era constante. Apesar dessa atmosfera, a primeira paixão da pequena Mariene foi o balé. Dos quatro aos 16 anos de idade, sua rotina foi tomada por ensaios exaustivos, que a fizeram inclusive ser aprovada para o corpo jovem do Teatro Castro Alves, o mais importante centro artístico de Salvador.

Divulgação
Mariene começou a carreira solo aos 18 anos

A música chegou quando Mariene tinha 12 anos e resolveu fazer aula de violão. Mas um fato mudaria sua vida para sempre: "Fui fazer aula de violão, mas aí vi a turma de canto e o professor me chamou para fazer um teste. Ele ficou impressionado com minha voz, afinal não é normal uma adolescente, com a voz em transição, ser contralto [tipo de voz feminina com timbre robusto e vigoroso, o mais raro do canto]. Ele convenceu minha mãe que era melhor eu fazer aula de canto", conta.
 
Aos 16 anos, Mariene já cantava profissionalmente. Fazia backing vocal de artistas de axé e cantava em jingles. E, desde então, a cantora pensava no que poderia ser a sua carreira. "Eu me pegava fazendo anotações com o que viria a ser o meu repertório, como seria a minha banda. E o sonho de ter uma carreira solo foi amadurecendo", relata.
 
Carreira solo e o sucesso repentino
 
O sonho da carreira solo se concretizou em 1996, quando fez seu primeiro show em uma casa no Pelourinho. E a sorte deu uma forcinha: "Um produtor francês estava na plateia e me convidou para fazer um intercâmbio cultural. Uma turnê por toda a França levando a música brasileira. Eu não tinha fita demo, release, nada. No dia seguinte ele me filmou cantando e o material agradou aos franceses. Foi um sonho. Saí da Bahia totalmente desconhecida e rodei por mais de 20 cidades, sendo superelogiada pela crítica, chegando a ser comparada com Edith Piaf", conta, orgulhosa.
 
O show que rodou a França já tinha a mesma estrutura em que a carreira de Mariene seria baseada: no resgate de composições do samba de roda do interior baiano, um repertório que estava fadado ao esquecimento e sequer era disseminado na Bahia.
 
"Desde pequena tive contato com as festas folclóricas das cidades pequenas. E, depois, fui pesquisando. Fui várias vezes para Santo Amaro da Purificação [cidade no interior da Bahia que abriga a Chula de São Braz] e encontrei um universo fantástico. Enquanto isso, as rádios só tocavam axé. Eu sentia que eu tinha uma missão: fazer as pessoas conhecerem aquelas músicas, que estavam fadadas ao esquecimento. Meu objetivo era acabar com o papo de que santo de casa não faz milagre", explica Mariene. 

Diego Mendes/BOL
Mariene foca seu trabalho no resgate de composições do samba de roda do interior baiano

Nesse processo de conhecimento, a atuação de compositores baianos, como Roque Ferreira, Jerônimo e Nelson Rufino, foi decisiva. "Passei 15 anos da minha vida dedicada a fazer minha carreira na Bahia e eu sempre procurei cantar coisas desses compositores. O interessante é que muitos deles já haviam sido gravados por cantores cariocas, como Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Roberto Ribeiro, mas seus nomes nunca foram muito badalados", relata.
 
Como consequência de seu trabalho árduo pela preservação do samba baiano, foram lançados "Abre Caminho" (2005) e "Santo de Casa – Ao vivo" (2010). O passo seguinte foi a assinatura do contrato com a gravadora Universal, por onde lançou "Tabaroinha", em 2012. Por conta dessa nova fase, mudou-se para o Rio de Janeiro.
 
Presentes proporcionados pelo samba
 
No Rio, a carreira de Mariane encontraria mais uma reviravolta surpreendente: o convite para viver Clara Nunes no show "Um Ser de Luz". "Eu tinha acabado de gravar o 'Tabaroinha', mas o Vagner Fernandes (biógrafo de Clara) me chamou para a homenagem, que seria exibida no Canal Brasil e viraria DVD. Eu fiquei em dúvida, tinha acabado de gravar um disco, que precisava ser trabalhado. Mas a gravadora encarou o desafio", relembra. Viver Clara Nunes no palco seria um novo marco na carreira de Mariene, que fez uma temporada de grande sucesso: "Foi um presente, que recebi com muito carinho e respeito por sua obra. Foi maravilhoso receber a aclamação dos fãs de Clara e apresentar seu repertório para um novo público, que já me acompanhava".

Reprodução/TV Globo
Sob chuva, Mariene de Castro canta no encerramento da Olimpíada

Presentes são comuns na carreira de Mariene, mas sempre acompanhados de muita dedicação da cantora. O mais recente, ela jamais se esquecerá: cantar na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. E, justamente, no momento mais emocionante: durante o apagar da pira olímpica. Ao ser perguntada se tinha noção de que o mundo inteiro estava lhe assistindo, Mariene confirma, mas destaca que dedicou um bom tempo para se preparar e chegar tranquila. Com os quatro filhos na plateia, a cantora encarou a performance mais inesquecível de sua vida.

 
"Antes de me apresentar, um filme passou pela minha cabeça. Pensei na minha vida toda e entendi que estava sendo presenteada. Tudo ali tinha uma simbologia forte: o apagar da pira, a música que falava das impermanências da vida… Você não tem noção o quanto eu pedi para que aquelas águas lavassem tudo, o quanto eu pedi paz no mundo. Chorei, e o choro se fundiu com a água. Estava numa plenitude e tranquilidade raras", relembra Mariene sobre o momento em que a chuva ajudou a apagar a pira olímpica da Rio-2016.
 
No mesmo ano da Olimpíada, Mariene fez sua estreia na televisão, na novela "Velho Chico". Paralelamente à trajetória como cantora, a carreira de atriz ainda estava no início quando ela foi convidada pelo diretor Luiz Fenando Carvalho para um teste para a trama da Globo. Mariene havia atuado em dois filmes de Ricardo Targino, "Ensolarado" e "Quase samba", quando fez o teste e foi aprovada. Ela entrou na segunda parte de "Velho Chico", como a personagem Dalva, empregada da fazenda dos Sá Ribeiro.
 
O trabalho como cantora, no entanto, é o foco de Mariene de Castro. Em meio ao contexto das comemorações dos 100 anos de samba, Mariene, que é uma incansável militante da música popular, afirma que se sente vitoriosa com sua trajetória, marcada por remadas contra a correnteza e também ótimos lances de "sorte". E se diz pronta para continuar em sua missão, que é a de cantar samba até o último momento. "Ser cantora de samba não é um caminho pensado para uma carreira. Samba é uma filosofia de vida, é o espírito, a alma da gente, a devoção, uma entidade. É tudo, menos uma escolha para uma carreira. Sou uma intérprete da música brasileira, mas sempre serei uma sambista. Sempre cantarei samba, estando ou não na moda."
 
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