Pagodeiro de sucesso, Péricles defende a mistura de outros ritmos ao samba

Bruno Favoretto
do BOL, em São Paulo

Nascido em Santo André, na Grande SP, Péricles Aparecido Fonseca de Faria, o Pericão, já coleciona 30 anos de carreira na música. Considerado um ícone do chamado "pagode romântico" - a vertente mais comercial de um gênero surgido na década de 70 com grupos como o Fundo de Quintal e que estourou nas paradas de sucesso na década de 90 -, o cantor foi um dos líderes do grupo Exaltasamba, até sua saída em 2012 para seguir carreira solo.

Em entrevista para o especial do BOL sobre o Centenário do Samba, Péricles recebeu a equipe na sede da sua produtora, na zona norte de São Paulo, e falou sobre suas influências musicais, o início da carreira e sobre o preconceito que sofreu por ser "do pagode", inclusive por parte de sambistas da velha guarda, que se dedicavam ao samba de raiz.

"Eles falavam: 'Ah, esses caras não sabem nada (de samba), não é possíve!' Diziam que a gente não tinha bagagem. E a gente teve que mostrar isso com o passar dos dias", diz o músico, garantindo que, para compor suas canções, sempre fez pesquisas "desde o começo da história do samba", mesmo quando elas trazem um toque de música negra norte-americana, salsa ou ainda sertanejo universitário.

A paixão pela música

Criado em um ambiente "muito musical", Péricles ouvia junto com o avô materno vários tipos de som, de grandes orquestras aos sucessos do rádio da década de 70, incluindo sambistas. "Era inevitável ter em casa pelo menos um disco de samba, seja Agepê ou Martinho da Vila", relembra Péricles, que começou a replicar as canções preferidas no violão, seu primeiro instrumento musical, o qual aprendeu a tocar na igreja.

Carreira de sucesso

Em 1986, Péricles fez parte da primeira formação do Exaltasamba, até então um grupo que tocava "covers" de sambistas famosos. No entanto, o músico só se firmou mesmo no Exalta em 1989, ajudando a lançar canções de sucesso como "Telegrama" e "Me Apaixonei Pela Pessoa Errada".

Cantando sozinho desde 2012, quando deixou o grupo, Péricles está satisfeito com os rumos da carreira solo. "Não vou ser pretensioso. Eu acredito que conquistei muito mais que eu imaginava. Não acreditava que chegaria tão longe (sozinho). Mas o dia a dia mostrou pra gente que estávamos corretos", garante.

Tudo junto e misturado

Com quatro discos lançados (com um quinto programado para ser lançado depois do Carnaval 2017) e mais alguns singles, como o "Seu Largar o Freio", Péricles não vê problema em misturar outros ritmos e influências ao samba, o que frequentemente é visto de forma negativa por admiradores do "verdadeiro" samba.

Ao ser indagado a respeito dos críticos que dizem que o cantor está se afastando muito do samba nos trabalhos lançados recentemente, tornando-se cada vez mais um cantor romântico e pop, o pagodeiro deixa um pouco de lado o tom carismático e tranquilo. "Sinceramente, não presto muita atenção nessas críticas. Porque acredito que quem fala dessa forma não buscou saber de fato como é o meu trabalho", dispara.

Reprodução
Lançado em 2015, "Feito pra Durar" é o mais recente álbum de Péricles
Para deixar claro, Péricles explica que essa mistura de outros ritmos com o samba faz parte de sua "maneira de pensar". "Ouço forró e trago pro disco. Ouço rhythm e blues (vertente da música negra norte-americana), ouço muita salsa. Nós somos do samba, defendemos o samba, mas nós somos da música, que é um universo muito grande. A gente não pode se prender a um pedacinho de chão", diz.

"Então vamos misturar. Quanto mais misturar, melhor", explica, citando como exemplo a música "Cuidado, Cupido", que tem participação do sertanejo Luan Santana. A canção foi gravada originalmente na voz do grupo Art Popular e consta do álbum "Sensações", o DVD de estreia de Péricles na carreira solo, que traz músicas inéditas dos músicos Carica e Prateado, ex-integrantes do grupo de pagode Sensação. "Nesse primeiro DVD eu procurei fazer uma homenagem a eles", conta Péricles. 

Está na raiz

Mesmo com essa mistura de outros gêneros, Péricles garante que o samba está em sua alma. "O samba sempre vai ser a base do meu trabalho, independente das minhas influências. Não tenho como me afastar do samba", conclui o músico. 

Prova disso é o álbum "Nos Arcos da Lapa", lançado em 2013, em que Péricles promove um resgate mais forte do ritmo. "Arcos da carioca, os Arcos da Lapa... Aqui, nesse lugar, um verdadeiro reduto do samba brasileiro, que eu resolvi prestar minha singela homenagem ao samba dos anos 90", diz o músico na introdução do show, que foi lançado em CD e DVD e contou com regravações de clássicos como "Sorriso Aberto", eternizado na voz de Jovelina Pérola Negra, "Viola em Bandoleira", do grupo Só Preto sem Preconceito, e "Quem é Ela", de Zeca Pagodinho.

Leia também:

Últimas notícias Ver mais notícias