MC Guimê diz que foi tratado como "animal" na adolescência

Felipe Souza
Da BBC Brasil

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    Fã de Zé Ramalho e Djavan, o funkeiro também defende a legalização da maconha e disse que as letras de suas músicas, tidas por algumas pessoas como machistas, apenas visam a "exaltar" as mulheres

    Fã de Zé Ramalho e Djavan, o funkeiro também defende a legalização da maconha e disse que as letras de suas músicas, tidas por algumas pessoas como machistas, apenas visam a "exaltar" as mulheres

De gorro, tênis e calça de moletom, Guilherme Dantas, de 24 anos, desfila em sua Range Rover Evoque pelas ruas de Alphaville. "Senhor Guilherme", como é chamado pelos seguranças e porteiros, se sente à vontade e quase nunca é incomodado dentro do condomínio de luxo localizado na Grande São Paulo - conhecido reduto de celebridades que vivem em mansões que chegam a tomar um quarteirão inteiro e custar mais de R$ 20 milhões.

Fora de Alphaville, Guilherme vira MC Guimê e não consegue dar muitos passos sem ser abordado por um fã pedindo uma selfie. Em oito anos de carreira, o jovem já acumula mais de 16 milhões de seguidores em redes sociais e emplacou o hit País do Futebol como uma das músicas mais tocadas durante a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, além de virar tema de abertura de novela das 19h na TV Globo no mesmo ano.

Em entrevista à BBC Brasil em uma pracinha dentro do condomínio onde mora, o cantor de funk conta que já sofreu preconceito nesses dois "mundos" onde viveu, mas que se adaptou e hoje consegue se sentir bem em ambos - mesmo ainda sendo alvo de discriminação.

Isadora Brant/BBC Brasil
Em oito anos de carreira, Guimê tem mais de 16 milhões de seguidores em redes sociais
"Enfrentar preconceito, eu já enfrentei muito. Não só aqui no condomínio, mas já enfrentei preconceito em aviões, aeroportos e, como dizem, em lugares de rico", afirma Guimê, que pediu para que a entrevista não fosse feita em sua casa, pois a piscina estava em reforma.

Fã de Zé Ramalho e Djavan, ele também defende a legalização da maconha e disse que as letras de suas músicas, tidas por algumas pessoas como machistas, apenas visam a "exaltar" as mulheres.

Para ele, seus verdadeiros fãs estão nas periferias.

O funkeiro, que faz shows em casas noturnas onde ingressos chegam a custar mais de R$ 300, lembra-se de algumas situações nas quais sentiu um preconceito velado.

"Às vezes, eu vou num restaurante chique e percebo que a outra mesa não está te olhando com carinho. Está te olhando e pensando: 'O que esse cara está fazendo aí, cheio de tatuagem, novão. Eu estou com tantos anos de vida, trabalhei para estar aqui, sou dono de empresa e esse cara está aqui'. Você vê que esse preconceito rola", diz.

Com roupas de grife, correntes chamativas e bebidas caras, ele posa para fotos ao lado de astros do esporte, como o jogador de futebol Neymar e o surfista Gabriel Medina. O cantor é um dos nomes mais importantes do funk ostentação, que traz letras de uma vida de luxo e excessos.

Mas o MC conta que também era alvo de preconceito mesmo antes de iniciar sua carreira, há oito anos.

"Quando não estava bem e tinha 15 anos, me lembro diversas vezes de que entrei em ônibus, no centro de Osasco (onde morava) e em vários lugares onde não era tratado como ser humano", diz.

Por outro lado, ressalva que muitas pessoas que o tratavam com desdém antes da fama, mudaram o tratamento nos últimos anos.

"Quando você está com uma roupa feia, numa má condição, pessoas te olham e te tratam como um animal, um inseto. E quando você está bem as pessoas te tratam como ser humano. E eu vi esses dois lados", diz o funkeiro.

Objetificação das mulheres

Em um momento em que há uma grande campanha contra atitudes machistas na internet, MC Guimê conta que já recebeu diversas críticas por "tratar mulheres como objeto" em suas músicas.

Em "Plaquê de 100", que acumula 75 milhões de visualizações no YouTube, ele canta: "Contando os plaquês de 100 dentro de um Citroën, nóis convida (sic) porque sabe que elas vêm".

O funkeiro rebate as críticas dizendo que sua intenção é a de elogiar as mulheres.
 

"(Essa) é uma visão muito fechada, porque a nossa ideia acaba sendo exaltar. Do mesmo jeito que a gente coloca que a gente tá tirando uma onda, que a festa está linda, que a nossa vida é linda, as mulheres estão do nosso lado. Nunca fui um cara de falar algo para desmerecer a mulher", diz.

Ele nega ser machista. "Eu nunca fui um cara assim. O cara que vai para a balada pode ter R$ 10 milhões no bolso, mas se ele não estiver com umas minas ao redor dele, não estará feliz. A nossa música fala sobre essa verdade".

Maconha

O funkeiro já disse algumas vezes que usa maconha, mas recentemente passou a evitar o assunto. Em entrevista à BBC Brasil, ele voltou a defender a legalização do uso da erva e compará-la com o cigarro e bebidas alcoólicas.

"Para mim, maconha não é droga. Ela é remédio e em vários países é legalizada. Então, a pessoa lá fora está com câncer ou com algum problema de estômago que não permite que ela se alimente direito, ela usa maconha. O cigarro de maconha nunca pode ser mais droga do que um cigarro de tabaco", afirma.

Por outro lado, o músico considera "um absurdo" legalizar o consumo de substâncias como cocaína e ecstasy.

"Isso não tem nem porque legalizar. Só se os boyzão que estão lá no poder e que adoram mandar um 'tirinho' legalizar essa porra. Não pode nem pensar em liberar cocaína e outras drogas químicas, como 'bala', ecstasy, crack. Se você quer ver um resumo do que o crack faz com a pessoa, vai na cracolândia. Você acha que tem que legalizar aquela porra? Tá louco? Vai matar todo mundo".

Letras

Guimê diz usar palavrões em suas músicas "só em último caso".

"Quando eu comecei a cantar, eu era mais livre pra isso. Mas quando eu vi que minha responsabilidade era grande, que uma criança me ouve, que minha família quer me escutar, quer ter orgulho de mim, eu falei: 'Vamos tirar os palavrões'".

Por outro lado, ele diz que não pensar em mudar suas letras para transmitir uma mensagem mais politizada para o seu público da periferia.

"Não é porque eu tô falando do carrão que eu não vou mudar o país. É aí que a gente se engana porque falando do carrão, eu chego onde ninguém imaginava. Se eu fizer uma música falando de protesto não é o que vai vender. Se a gente for falar de protesto, protesto, protesto, vai vir vários outros aí falando uma pá de baboseira e tomar o lugar de quem tá em alta, que é nóis, a favela, a quebrada".

Ele diz considerar que, mais importante que escrever músicas de protesto, é gerar emprego.

"Nosso foco é chegar longe. Não é porque eu tô falando de festa que eu não estou ajudando o meu país, que eu estou ajudando a galera. Eu fiz vários outros MCs acreditarem, então eu estou ajudando de certa forma. Porque a galera que hoje vive do funk estrutura 20, 30 funcionários e todo mundo acaba trazendo retorno financeiro em casa. O funk de São Paulo é ostentação. É falar que o MC saiu da favela para ganhar dinheiro", diz Guimê.

"Não é porque eu vim de baixo que eu tenho que ficar embaixo. Olha onde eu cheguei, vai segurando."

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