Filme baseado na Lava Jato tem mudança na história e crítica ao STF

Vinicius Boreki
Colaboração para o UOL, em Curitiba

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    Cena de "Polícia Federal - A Lei É Para Todos"

    Cena de "Polícia Federal - A Lei É Para Todos"

Baseado em personagens reais e em uma operação ainda em andamento, o filme "Polícia Federal – A Lei É Para Todos", que estreia na próxima semana, alterou alguns acontecimentos e protagonistas para que a narrativa ficasse mais coesa. "Em qualquer filme baseado em fatos reais, tenta-se colher o maior número possível de relatos das pessoas que estiveram presentes, confrontar e checar com a realidade. Depois disso, você adiciona uma camada de roteiro. É cinema, não documentário. Uma ficção baseada em fatos reais", disse o diretor Marcelo Antunez nesta terça-feira (29), em entrevista coletiva em Curitiba. 

Antunez ressaltou que, para que a história tivesse credibilidade para o público, seria necessário reduzir o número de participantes da força-tarefa, seja da Polícia Federal (PF) ou do Ministério Público Federal (MPF). "O personagem do [Antonio] Calloni não é o Igor [Romário, delegado da PF que integra a investigação]. A condução coercitiva do Lula não foi feita por ele. A personagem da Flávia Alessandra não é a Erika [Marena, também delegada da PF]", ressalta Antunez.

Essa foi, também, a razão pela qual os personagens relacionados à PF e ao MPF tiveram os seus nomes alterados, enquanto a identidade dos investigados – caso do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, do doleiro Alberto Youssef e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – foi mantida. Além disso, em muitas cenas, o roteiro optou por manter as falas dos personagens exatamente como as transcrições e vídeos. "Quanto mais próximo da realidade, melhor", diz o diretor.

Assista ao trailer do filme

O ator Rainer Cadete, responsável por interpretar um dos membros da força-tarefa do MPF – e efetivamente lembra o procurador Deltan Dallagnol na telona --, considera o trabalho realizado pelo procurador como inspirador e o contato com ele fundamental para construir o personagem. "Eles [do MPF] são muito transparentes. Não é um trabalho político, mas técnico", opina. Além disso, considera o filme como uma oportunidade para enxergar os procuradores de forma mais ampla e humana – com os conflitos de consciência envolvendo os seus atos ao longo da investigação. "Gosto de colocar minha arte à disposição para iluminar pontos de escuridão e incentivar o debate", ressalta.

Antonio Calloni, que interpreta o delegado Igor, o condutor da narrativa, afirma que o principal desafio era apresentar os integrantes da investigação como humanos. "Percebemos a extrema humanidade que esses delegados têm. Eles têm uma tremenda vontade de acertar e não são heróis. Isso é a chave para o filme, pois ninguém está defendendo uma verdade absoluta", diz.

Crítica ao STF

Theo Marques/Folhapress
Sergio Moro ganha pipoca de Marcelo Bretas na pré-estreia do filme
Ao longo do filme, os personagens criticam e temem que os processos sejam analisados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente devido ao foro privilegiado – tema que já foi abertamente criticado pela força-tarefa da Lava Jato. Na avaliação de Antunez, não se trata de uma crítica à instituição, mas ao processo. "Já consigo compreender alguns pontos em relação à existência do foro privilegiado, mas acho que ele faz mais mal do que bem. É um assunto que precisa ser mais debatido pela sociedade", afirmou o diretor, ressaltando a ideia de que o principal objetivo do longa, além de entreter, está em levantar o debate em um momento de polarização.

Nesse contexto, o diretor rechaça a necessidade de que a obra deva ter um distanciamento histórico. "No início, tinha uma preocupação em reler o roteiro, procurando por possíveis interpretações equivocadas nas cenas. Mas não há como fazer nada para evitar isso. Por isso, fomos os mais responsáveis possíveis e não tentamos fazer qualquer análise. A gente não se propõe a analisar nada durante o filme", diz.

O filme teve pré-estreia para convidados na noite de segunda, na capital paranaense, e contou com mais de 2.000 pessoas. O evento teve a participação de personagens importantes da Operação Lava Jato, como o juiz federal Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. A estreia nos cinemas acontece no dia 7 de setembro.

 
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