Após chocar nos anos 70, Edy Star volta uma "vovó transgressora"

Tiago Dias
Do UOL, em São Paulo

  • Gal Oppido/Divulgação

    Após 43 anos de hiato, Edy Star volta a gravar

    Após 43 anos de hiato, Edy Star volta a gravar

Antes, muito antes de uma nova geração de artistas na MPB e no pop brasileiro levantarem as questões de gênero e sexualidade, um baiano chutou a porta do armário com uma bota plataforma, o rosto maquiado, cantando na cara da ditadura: "Chega de brincadeira / já estamos bem entendidos / concubinados, convencidos / Que para um bom entendido / Meia cantada basta".

Entendido, na época, era sinônimo de gay enrustido, algo que Edy Star nunca foi. Na adolescência em Salvador, quando andava com Gilberto Gil e Caetano Veloso, ele chutou para o alto a carreira no setor petrolífero para fugir com o circo e caía na porrada quando algum espertalhão mexia com os homossexuais no centro da cidade. "Gritavam: 'Chama a Bofélia!' Era meu apelido", relembra com certo orgulho.

Prestes a completar 80 anos, ele está de olho nos novos artistas e chega a um consenso: "Eu sou a própria transgressão, meu amor, você queira ou não. Sou avó de de todos. Uma vovó transgressora."

Não há como negar. Cantor, ator, dançarino, produtor e artista plástico, Edy foi o primeiro artista brasileiro a declarar-se gay publicamente, em 1975, mostrou em peças e espetáculos tudo que era proibido pela censura e presenciou o nascimento artístico de Raul Seixas, seu amigo de infância.

Trajetória das mais ricas que ficou à margem nas últimas décadas. Não à toa, só agora Edy lança o segundo disco, quebrando um hiato de 43 anos, desde o lançamento de "...Sweet Edy...", pérola que se tornou cult nas últimas décadas. Uma cópia do vinil de 1974 é disputada a tapas na internet e chega a custar R$ 1 mil.

Ao entrar no estúdio, depois de décadas esquecido, não se aguentou: "No primeiro dia eu chorei pra c*****", conta. "Cabaré Star" (Saravá Discos), produzido por Zeca Baleiro e Sergio Fouad, traz o lampejo dos tempos da contraversão e participação especial dos amigos Caetano Veloso e Ney Matogrosso.

O show de lançamento acontece em São Paulo na próxima quarta-feira (15) e serve para antecipar a comemoração de oito décadas de vida, que ele completa em janeiro. "Eu sou tão velho que no meu tempo não existia nem a palavra gay, querido!"

Mais do que bem entendido, Edy abre para o UOL seu baú de memórias:

Reprodução
Edy Star (blusa amarela), Raul Seixas (à direita), Sérgio Sampaio (acima) e Miriam Batucada na época do álbum "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10" (1971)
Nasce Raul

Amigos desde os 15 anos, Edy e Raul Seixas moravam no mesmo bairro em Salvador. Após abandonar o grupo Rauzito e os Panteras, o cantor aceitou o convite para ser produtor musical na gravadora CBS, no Rio de Janeiro. Entre uma gravação e outra, Raul armou com Edy, Miriam Batucada e Sergio Sampaio um trabalho conjunto, "Sociedade da Grã Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez", um disco anárquico demais para uma gravadora que só se preocupava com "a copa e a cozinha", ou seja, Roberto Carlos e Jerry Adriani.

Raul apresentava o disco como um dos mais caros já feitos no Brasil. "Raul não mentia, mas inventava para caralho", resume Edy. "Tínhamos que mandar o disco para a censura federal, estávamos com medo, mas acabamos sendo censurados pela própria CBS."

O disco ficou nas prateleiras por 15 dias até ser recolhido pela gravadora. "Aquilo feria os brios da CBS, porque Raul se atreveu a cantar, não era a função dele", conta Edy, que volta a gravar os antigos companheiros no novo disco.

A saga kavernista de apenas um disco abriu espaço para o nascimento de um dos artistas mais populares do país. "É o primeiro disco em que ele assina Raul Seixas. Antes ele assinava Rauzito. Foi um divisor de águas."

Divulgação
Assumidamente gay

Desiludido da primeira experiência fonográfica, Edy foi trabalhar na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, principal ponto mundano e boêmio da cidade. Era ali, em plena ditadura, que o teatro de revista trazia tudo que a censura proibia na época. "Tinha mulher nua, número lésbico e anão nu correndo pelo público", relembra. "Era zona de porto. Era barra pesada. Ao mesmo tempo em que o público era de intelectuais e granfinos."

"Eu me sobressaí nesses shows, foi quando o pessoal do [jornal] 'O Pasquim' me descobriu e escreveram: 'É a melhor coisa que está acontecendo no Rio'". 

Em 1975, quando estava em cartaz com a versão nacional do musical "Rocky Horror Picture Show", Edy deu uma entrevista à revista "Fatos e Fotos": "Tive coragem de assumir quem eu sou", dizia a manchete.

Antonio Guerreiro/Divulgação
Tapa no filho do presidente

Se assumir gay nunca o deixou sem trabalho. "Fiz várias peças de sucesso. Não vou dizer que me abriu portas, mas nunca me trouxe problemas". De qualquer maneira, a presença andrógina de Edy feria a "família e os bons costumes". 

Talvez por isso ele viveu dois anos contratado da TV Globo sem conseguir gravar um programa. "Antes eu participava de alguns programas, mas quando fui contratado realmente era proibido eu aparecer. Era uma agressão ao público. Maria Alcina ficou quanto tempo sem aparecer também? Ney [Matogrosso] podia aparecer, mas só do peito para cima."

No teatro, foi chamado pela Censura algumas vezes. "Sempre por bobagem. Fazia um pot-pourri com músicas sobre peito e me chamavam. Você acredita nisso? Em uma das vezes, disseram: 'Vamos sumir com você'. Aí bateu medo".

No entanto, passou incólume ao dar um tapa na cara do filho do último presidente no regime militar, João Figueiredo. "Eu entrava na boate, cantava 'Hipócrita', um bolero bem passional, sentava no colo e dava uma bofetada na cara. Uma vez foi na cara do filho do General Figueiredo. Foi um inferno. Eu não sabia quem é que ia aos clubes me ver."

 

"Quero ser Marc Bolan"

Seu visual andrógino começou a fazer barulho em 1973. A fama de Edy e seus espetáculos chegaram aos ouvidos de João Araújo, presidente da gravadora Som Livre, que foi conferir de perto aquele artista de cara pintada, cujo tempero libertário era um reflexo do que já acontecia na Europa, com David Bowie.

"Eu queria ser Marc Bolan [astro do glam rock e guitarrista do T-Rex]", lembra, sem deixar de comentar de um "crush" da época: "Eu via aquele menino do The Who [o vocalista Roger Daltrey] com a calça lá embaixo e os pentelhos aparecendo, um tesão, e hoje ele está um caco".

Foi atrás dos amigos célebres pedir por letras inéditas: Gonzaguinha, Gil, Caetano, Jorge Mautner e até a dupla de compositores mais famosos na época, Roberto e Erasmo Carlos. "Naquele tempo até para dividir a maconha existia irmandade", diz.

A Gil fez um pedido especial: "Eu quero algo como Alice Cooper", disse, de olho no sucesso do americano. Gil batizou seu rock de "Edith Cooper".

Arquivo pessoal/Folhapress
Edy com Caetano nos anos 1980

Bucetário espanhol

Edy deixou o país no início dos anos 1990 quando percebeu mudança de ventos. "Estava difícil, acabaram com os conjuntos nas boates. Os artistas cantavam com playback, com acompanhamento gravado ou então fazendo dublagem".

No terceiro dia em Madri, na Espanha, conseguiu um emprego em um cabaré. "Cantava 'Besame Mucho' e tinha um número próprio aos finais de semana, quando eu assumia uma personagem, a Lady Xanxona. A gente fazia muita festa de solteiro e era engraçado, nunca houve uma só briga. Era praticamente um bucetário. Imagina eu gay com 45 mulheres nuas tentando enfiar a xereca na minha cara? As loucas me sacaneavam muito." 

Serviço:

Edy Star, em Cabaré Star - O Show
Convidados especiais: Cida Moreira, Maria Alcina e Zeca Baleiro
Quando: quarta, 15 de novembro, às 22h30
Onde: Casa Natura Musical - Rua Artur de Azevedo, 2134, Pinheiros, São Paulo

Ingressos:
Meia-entrada para todos os setores
Pista: R$ 50 (lote 1), R$ 70 (lote 2) e R$ 90 (lote 3)
Bistrô superior: R$ 90
Camarote: R$ 100
Classificação etária: 12 anos (menor de 12 acompanhado pelos pais ou responsáveis)
 

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