João Bosco critica Polícia Federal por usar música em título de operação

Do UOL, em Sâo Paulo

  • Flora Pimentel/Divulgação

    O cantor João Bosco

    O cantor João Bosco

O cantor e compositor João Bosco manifestou publicamente seu repúdio à ação da Polícia Federal que resultou na condução coercitiva do reitor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Jaime Arturo Ramirez, e de vários de seus auxiliares nesta quarta (6).

Usando as redes sociais, João Bosco afirmou que houve abuso por parte da PF, inclusive por tê-lo citado indiretamente no título da operação, denominada "Esperança Equilibrista", trecho da letra de uma de suas mais clássicas canções, "O Bêbado e a Equilibrista", parceria com Aldir Blanc famosa na voz de Elis Regina.

De acordo com a Polícia Federal, a UFMG teria desviado R$ 4 milhões dos R$ 19 milhões destinados à construção do Memorial da Anistia Política, em Belo Horizonte, que está em obras desde 2009 com recursos provenientes do Ministério da Justiça.

Veja abaixo a nota publicada pelo músico.

"Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.

Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de "Esperança equilibrista", em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.

Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar."

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