Gilberto Gil explica homenagem a Andréia Sadi e Maria Ribeiro em novo disco

Carolina Farias
Do UOL, no Rio

  • Gerard Giaume/Divulgação

    Gilberto Gil lançou álbum "OK, OK, OK" no Rio

    Gilberto Gil lançou álbum "OK, OK, OK" no Rio

Gilberto Gil lança, nesta sexta-feira (10), o seu novo álbum, "OK, OK, OK". Nele, seu médico Roberto Kalil, a atriz Maria Ribeiro e a jornalista Andréia Sadi, são alguns dos homenageados.

A canção "Lia e Deia" foi um pedido delas. "Estávamos em um jantar na casa de Jorge Bastos Moreno [jornalista morto em junho do ano passado] que sempre reunia muita gente do mundo dele, suas musas, as meninas que ele adorava na TV. Passei a fazer parte do círculo. Mostrei a música que fiz com ele para a Roberta Sá e elas estavam e adoraram. Maria disse que queria uma também. A Sadi  olhou e disse 'também queria' então Maria contemporizou: 'Uma música para as duas'", contou Gil.

"OK, OK, OK, já sei que querem a minha opinião" é o verso que abre o novo disco e que já entrega a intenção do artista de 76 anos.
Nesse clima, Gil deu entrevista para jornalistas na noite de quinta-feira (9), no Rio, sobre o novo trabalho e a estreia de sua série "Amigos, Sons e Palavras" no Canal Brasil. Ele não se furtou em falar sobre política, racismo, as homenagens do disco a pessoas que compartilharam com ele o difícil período em que passou por várias internações por problemas nos rins, época em que foi alvo de ataques na internet.

"Quando estava hospitalizado me mataram duas vezes. 'Gil morreu', 'ainda bem que já foi'", contou Gil aos risos, que apontou que o ódio a ele vai além de ele ter sido ministro da Cultura do governo Lula - de 2003 a 2008. "Tem a ver com tudo, tem a ver com o fato de eu ser negro. É bom que se diga isso", frisou o músico.

Os ataques e menções a sua morte via redes sociais não abalaram Gil na época. Ele afirma que encara a morte como parte da vida e nem nos momentos em que esteve doente isso o abalou.

"Sempre pensei [na morte] antes desses episódios que desafiaram minha saúde e vitalidade. Walter Smetak [músico e filósofo suíço] um grande homem que migrou para o Brasil e se instalou na Bahia era pesquisador das religiões exotéricas e me tornei apreciador desse modo de especular sobre a existência. Um dia ele me disse "Gil, pense na morte todo dia". Passei a pensar todo dia desde então. A morte faz parte da vida, se vale a pena viver então morrer vale a pena. É um trecho de uma das minhas músicas", contou Gil.

O título do álbum e da música que o abre, explicou o artista, é sobre a constante solicitação de posicionamentos a que ele é submetido desde quando começou a se destacar na carreira, nos anos 1960.

"Essa questão de sermos solicitados a opinar, dar pitaco, dizer coisas com as quais a gente se alinha ou não se alinha é uma coisa que já vêm de muito tempo por força da geração. Pertenço a uma geração que foi obrigada a fazer isso. Vem desde o tempo da ditadura. Muito por ímpeto, mas muito por responsabilidade social, pelo fato de nos tornarmos figuras públicas, ídolos, gente querida", explicou Gil, que usou como exemplo a recente apresentação dele no Rio, no dia 28 de julho, com Chico Buarque, no Festival Lula Livre.

"A música 'Cálice' que cantei com o Chico agora na manifestação a qual aderimos em favor da libertação do Lula foi a que tínhamos feito lá atrás [1973] falando da questão da censura na ditadura. É uma demanda que vem historicamente se dando ao longo desses anos todos para a minha geração. Gente como eu, Chico, Caetano e tantos outros", disse.

Apesar de ter se apresentado no festival, Gil afirmou que não votaria no ex-presidente. "Fui por questões de princípios em relação à defesa dos direitos democráticos, de pluralidade, de manifestação, de uso da palavra. Se o Lula fosse candidato eu talvez nem votasse nele. Já votei na Marina [Silva] duas vezes. Não estava ali defendendo a ideia da candidatura dele, mas me colocando em relação às dificuldades que temos em compreender os aspectos de lisura de seu processo e condenação", explicou.

Entrevistador

No primeiro episódio de sua série de entrevistas, Gil conversa com Caetano, amigo e parceiro de mais de 50 anos, sobre essa solicitação constante para os artistas darem opinião e também sobre envelhecimento. A série faz parte das comemorações dos 20 anos do Canal Brasil e estreia dia 21 de agosto às 21h30.

"Eu disse que ia usar uma das frases famosas de Dona Canô [mãe de Caetano]: 'Quem não morre envelhece'. Uma frase muito simples, natural e sábia, que denota essa necessidade que temos que é estabelecer um diálogo profundo entre a finitude e a plenitude do viver, que em geral está muito associada à juventude, momentos que não se pensa na morte. É um tema interessante a nossa conversa sobre como é que se vive antes de morrer", explicou Gil, que também conversa no programa com Fernanda Torres, Drauzio Varella, Maria Ribeiro, Renata Loprete, o médico Roberto Kalil Filho, o chef Alex Atala, Juca Kfouri, o cineasta Fernando Grostein, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Lázaro Ramos.

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