Quem é o poeta cearense que ganhou o Prêmio Jabuti com livro independente

Felipe Branco Cruz
Do UOL, em São Paulo

  • Marcos Ribas/Brazil News

    Mailson Furtado Viana discursa no Jabuti ao ganhar o prêmio de Melhor Livro do Ano por "À Cidade"

    Mailson Furtado Viana discursa no Jabuti ao ganhar o prêmio de Melhor Livro do Ano por "À Cidade"

Autor de livro de poesias independente, sem recursos financeiros e vindo de uma cidade do interior do Ceará, o escritor Mailson Furtado Viana, de 27 anos, tinha tudo para passar despercebido no 60º Prêmio Jabuti, mas saiu de lá consagrado com a maior honraria da noite, o troféu de Livro do Ano.

Divulgação

Mailson venceu com o livro "À Cidade", no qual o poema-título tem mais de 60 páginas relatando a vida nas cidades do interior do Ceará. Além do troféu, ele ganhou também um prêmio R$ 100 mil e desbancou concorrentes de peso, como Jô Soares, Artur Xexéo e Fernando Gabeira.

A vitória surpreendeu até o autor, que viajou para São Paulo de sua cidade natal Cariré, de quase 20 mil habitantes, no interior do Ceará, a 3 horas de Fortaleza. "Eu quase não vinha. Achei que não iria ganhar nada", disse o autor ao UOL.

Formado em odontologia e funcionário público da cidade vizinha de Reriutaba, Mailson é filho de um agricultor e de uma dona de casa. Muito fã do rock brasileiro dos anos 80, na adolescência ele queria ser músico. "Mas eu não sabia tocar nenhum instrumento, então fui compor letras. Daí, o caminho natural foi escrever poesias".

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Os livros surgiram das reuniões que ele fazia quase todos os dias com um grupo de amigos no qual discutiam sobre os mais variados temas. "Minha cidade é pequena e não tem muito o que fazer. Então, a gente se encontrava e nos retroalimentávamos, criando poesias, literatura, música", lembrou.

A trajetória vitoriosa de Mailson aponta um caminho que escritores talentosos do interior do país estão seguindo: a autopublicação. Esses autores têm que enfrentar o mercado cada vez mais restrito, com grandes livrarias sendo fechadas e editoras escolhendo a dedo os autores que vão publicar, geralmente dando prioridade para os mais populares e os que vendem mais.

"Este foi um livro feito à mão, totalmente independente. Até o desenho da capa é meu. É uma obra em que eu narro o meu lugar, uma cidade que nasceu há menos de 50 anos. E agora eu estou com esse Jabuti na mão", disse o autor no seu discurso de vitória.

Além da crise do mercado livreiro, Mailson conta que autores independentes enfrentam outras dificuldades. "Tem a questão financeira. Se você não tiver dinheiro, você não publica. Depois tem a burocracia e, para uma pessoa do interior, tem a dificuldade para conseguir a atenção de um grupo editorial", explicou. "Ouvi muitos 'nãos'. A própria região em que vivo tem um mercado editorial muito raso".

Alternativa para superar a crise literária

A maioria dos autores indicados ao Jabuti concorda que a autopublicação é uma das alternativas que os escritores têm para contornar a crise no mercado literário.

Gustavo Ravaglio, indicado em duas categorias pela história em quadrinhos "O Planta: Um Bípede entre Plantas", publicado também de maneira independente, contou que seus livros não são vendidos em livrarias. "Tento trabalhar pela internet, em feiras, eventos de literatura, no boca-a-boca", disse. "Para um autor independente, é essencial o encontro com o público".

Ravaglio cita o exemplo da Argentina, que possui sete vezes mais livrarias que o Brasil, a maioria pequenas. "Vivemos em um país que não lê e quem vai em livrarias só olha os livros e depois compra pela internet, que é mais barato. Lamento o fechamento das livrarias, mas acho previsível, dado o momento que estamos vivendo".

O escritor Franthiesco Ballerini, indicado pela obra "Poder Suave (Soft Power)", citou o projeto de lei que fixa por um ano o preço de capa de livros recém-lançados. "Acho que ajudaria as pequenas livrarias, que não conseguem concorrer com as megastores. Além disso, em uma livraria pequena, o dono faz uma curadoria própria, expondo os livros que mais lhe interessam, enquanto nas grandes livrarias, as estantes são sempre loteadas pelas grandes editoras, ficando tudo igual".

Ballerini elogiou ainda a vitória de Mailson. "Mostra que existe uma alternativa no mercado de livros. Autores independentes estão buscando seu próprio caminho sem depender das grandes editoras".

Dib Carneiro Neto, que ganhou o Jabuti na categoria Artes pela obra "Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela", celebrou a vitória de Mailson. "Achei maravilhoso que o livro do ano tenha sido um projeto independente. É uma escolha sintomática do que vai acontecer nos próximo anos. Prevejo um 2019 complicado. Acho que as editoras vão pisar no freio e esperar para ver o caminho que o novo governo vai tomar".

Jô Soares, indicado na categoria Biografias pela obra "O Livro de Jô", lamentou o fechamento das grandes livrarias. "É sempre terrível, sobretudo porque a livraria é um local de encontro. Você não vai lá só para comprar. Você vai para se encontrar e encontrar alguém".

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