'Sei que os homens não querem perder de mim', alfineta Roberta Borsari, pioneira da canoagem no país

Márcio Padrão
do BOL

  • Fabio Paradise

    Roberta Borsari realiza o stand up paddle na Amazônia

    Roberta Borsari realiza o stand up paddle na Amazônia

Às seis horas da manhã, todo dia útil da semana, Roberta Borsari chega à raia olímpica da Universidade de São Paulo (USP), na zona Oeste da capital paulista, para treinar. Em três horas, ela pratica uma série de exercícios, como endurance (resistência), remadas longas e tiros de velocidade. De lá, vai para o seu trabalho como gerente de comunicação online no prédio do UOL, no bairro do Jardim Paulistano, onde trabalha oito horas por dia, até descansar em sua casa, no bairro de Campo Belo, onde dorme às 22h30 para encarar o dia seguinte.

A rotina pesada de Roberta, paulistana de 38 anos, não é uma imposição. Ela escolheu abraçar a vida dupla e concilia a profissão com o esporte com muita disciplina. E por isso acumulou tantas vitórias em diversas modalidades da canoagem, sendo considerada hoje a principal atleta feminina desse esporte no Brasil. Com 14 anos de carreira, Roberta já levou troféus no rafting, caiaque pólo, slalom, água branca, canoa havaiana e sua atual paixão, o kayaksurf. Neste ano, atingiu outra marca pessoal: tornou-se a primeira mulher a surfar de caiaque em uma pororoca no rio Araguari, no Amapá, sobre ondas de até dois metros de altura.

Filha de professores de educação física, Roberta sempre acampou e passou dias em casas de praia, hábito que mantém até hoje - seus finais de semana são dedicados aos treinos no litoral da Barra do Sahy, no município paulista de São Sebastião. Por meio de um amigo de seu irmão, na época da faculdade, teve contato com o rafting (descida em corredeiras em botes infláveis) e logo se tornou instrutora e atleta, obtendo o tricampeonato em 1997, 1998 e 1999.

DESBRAVADORA

"Na época, as brasileiras não praticavam esses esportes mais desafiadores, até porque não tinham muita tradição como nos Estados Unidos e Europa. A divulgação existia, mas era mais em mídias segmentadas. O fato de eu ser mulher acabou chamando mais atenção para essas modalidades", relembra. Foi uma viagem de estágio em 1999, para a Costa Rica, que deu uma virada em sua ainda iniciante trajetória, pois ela teve a oportunidade de fazer descida de rio com caiaque aberto inflável, conhecido como "duck".

Ao retornar ao Brasil, o caiaque virou a nova menina dos olhos de Roberta. Experimentou novas emoções náuticas e não saiu perdendo. Em 2000, foi campeã paulista e campeã da Copa Brasil de caiaque pólo, além de vice-campeã na Copa Brasil de Slalom, onde o canoísta deve percorrer corredeiras leves, mas com forte movimentação de água. No ano seguinte, venceu o campeonato brasileiro de canoa hawaiana. Já em 2002, levou sua primeira medalha - bronze na categoria iniciantes -  no kayaksurf, modalidade que, como diz o nome, consiste em surfar ondas marítimas em caiaque próprio para esse esporte.

As mais recentes conquistas de Roberta foram o quarto lugar na etapa Fortaleza (CE) do campeonato nacional de kayaksurf, realizada em maio no Ceará, e um projeto pessoal de surfar na pororoca do rio Araguari via kayaksurf e stand up paddle, que é ficar em pé com um remo em uma prancha longa.

Roberta reconhece que, assim como tantos outros esportes, ainda é difícil sobreviver apenas da canoagem no Brasil. "No meu caso eu me sinto uma privilegiada, pois trabalho no UOL há oito anos e durante todo esse tempo o portal me patrocinou. Brinco dizendo que tenho duas profissões mas trabalho para o mesmo chefe", conta, orgulhosa. 

Após o pioneirismo de Roberta, mais mulheres ingressaram nesses esportes ao longo dos anos. "Não posso dizer que fui a principal responsável, mas acho que contribuí com essa mudança. Elas veem que é possível manobrar as ondas sobre o caiaque e ficam curiosas". A atleta afirma nunca ter passado por nenhum tipo de preconceito, mas também alfineta o sexo oposto: "O começo foi muito gratificante, pois meus amigos esportistas até me incentivaram. Era bacana pra eles ver uma mulher como pioneira. Mas como eu ainda disputo com homens em algumas categorias, eu sei que eles não querem perder de mim. Fica essa sensação no ar. Mas nunca ocorreu discriminação".

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