Capoeirista é hit na web com golpes incríveis. Mas por que não está no UFC?

Maurício Dehò
Do UOL, em São Paulo

No meio do mix de artes marciais que se vê nos octógonos e ringues de MMA, uma ausência costuma passar batida: onde estão a ginga e os golpes plásticos da capoeira? A combinação de dança e luta desenvolvida por escravos africanos no Brasil ainda é pouco usada. Mas, quando é, faz nocautes bombarem na internet. Que o diga Marcus "Lelo" Aurélio, que em 2009 bateu um rival com uma meia-lua de compasso, num golpe que ficou famoso à época e ainda hoje tem picos de audiência, viralizando na web de tempos em tempos.

Lelo tem 27 anos e carrega a bandeira da capoeira em sua carreira, uma tradição de família. Seu pai, o mestre Barrão, começou em Recife o Grupo Axé Capoeira. Superando a miséria, ele acabou levando seu trabalho para o Canadá, abriu uma academia por lá e transmitiu os ensinamentos ao filho, que hoje tenta enterrar os preconceitos com suas vitórias no MMA.

Foi seu famoso golpe contra Keegan Marshall, há cinco anos, que deu fama ao brasileiro. Na ocasião, ele precisou de 20 segundos para jogar dois golpes de capoeira no canadense. O primeiro ficou no ar. O segundo não. Com dois giros, Lelo surpreendeu Marshall, que ficou perdido em meio à ação e sequer viu o pé esquerdo atingir seu rosto, resultando num nocaute instantâneo – para muitos, o primeiro nocaute com uma meia-luta de compasso na história do MMA.

Hoje, Lelo já soma 6 vitórias e duas derrotas na carreira, sempre levando seus movimentos para a ação. É um trabalho lento para convencer o público e os rivais de que sua arte marcial não é apenas uma dança brasileira. Mas que já chamou a atenção do próprio UFC.

Em 2011, o pernambucano chegou a participar da seletiva do TUF 15 e avançou à fase final. No entanto, preferiu escolher algo que achou mais concreto e assinou com um evento rival.

"Eu quase fui pra TUF 15, mas quando fui chamado, já estava finalizando o contrato com o Bellator. Tive que decidir: 'vou para o TUF para lutar e tentar ganhar um contrato, ou fico com este contrato que já está garantido?' Preferi ficar com o certo", explicou Lelo, que estreou com derrota por pontos no evento no fim de 2012 e retorna só agora em maio para sua segunda luta.

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O certo, para Lelo, não é apenas correr atrás do cinturão. É colocar a capoeira em posição de destaque no mundo das lutas. "Meu objetivo é representar a capoeira bem. Com certeza existe um grande preconceito com a capoeira no MMA. O fato é que ninguém acredita que ela pode ser utilizada no MMA. Por isso que luto até hoje, até que o mundo todo respeite a capoeira não vou parar", promete ele.

Como era com o jiu-jítsu de Royce Gracie, Lelo conta a capoeira ainda tem a grande vantagem de ser desconhecida dos rivais. Só de gingar na frente de um lutador gringo, o pernambucano já vê a dúvida em seus olhos. E é nesse momento que um golpe pode conectar.

"O adversário não saber o que vou fazer sempre foi uma das minhas principais vantagens. Existe também um ponto negativo (da capoeira), mas esse é segredo", ri Lelo.

"Sempre achei que a capoeira casaria com MMA, porque nós treinamos todos os aspectos para uma luta na rua. Tanto que agora o MMA tem muitas regras, e a capoeira não. Ainda existem cabeçadas, pisão, e várias outras técnicas que não se usa mais no MMA, por ser perigoso. Acho que não vemos mais lutadores usando as técnicas porque eles não têm conforto suficiente pra isso. Você precisa estar muito confortável para soltar os golpes. Eu treino desde que nasci, então pra mim usar capoeira é o instinto natural", explica ele.

A vida de capoeirista

Lelo nasceu na capoeira. Como seu pai, o mestre Barrão, é o líder do Grupo Axé Capoeira, criado em Recife, ele não poderia ter outro destino que não fosse aprender desde cedo os movimentos da arte marcial.

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"Nós sempre treinamos muito e meu pai me encorajou a ser lutador. Fazíamos muitas competições de MMA para representar a capoeira e ele sempre me ensinou as técnicas. Eu não sabia se tinha talento, mas sempre tive o instinto de lutar e acabava me dando bem. Gosto de lutar primeiramente porque represento um arte que não é considerada uma luta. Gosto do aspecto de que você é um guerreiro que tem que utilizar sua agilidade e talento para sobreviver, como os escravos no Brasil, na época em que capoeira foi criada", explica ele.

A família do lutador teve a oportunidade para levar seu grupo para Vancouver, no Canadá, em 1990. E partiram. Em 1995, ele e o irmão puderam acompanhá-los e se fixaram por lá.

"Aqui o custo de vida é o segundo mais alto do mundo. Custa muito caro morar aqui. Então, dou aulas de capoeira e também faço shows e grandes espetáculos. Também já participamos de filmes e comerciais, fora as lutas", conta Lelo, que muitas vezes tem de abrir mão dos trabalhos paralelos para se dedicar só aos treinos. "Custa muito dinheiro lutar..."

Três perguntas para Marcus Aurélio, o Lelo
  • A que você credita as suas vitórias rápidas e com golpes tão plásticos?
    "Eu vou no instinto mesmo e termino meus adversários com nocaute. Para fazer movimentos de capoeira na sua luta, você tem de estar muito confortável, fica difícil utilizar capoeira se você não tem vários anos treinando a arte. Eu treino desde que nasci, então pra mim usar capoeira e um instinto natural."
  • Seu objetivo é chegar ao UFC num futuro próximo?
    "Chegar ao UFC não é o único jeito de levar a capoeira para o resto do mundo. Já existem milhares de capoeiristas que ensinei em várias partes do mundo. Mas com certeza com a ajudar do Bellator e do UFC a capoeira pode ser muito mais conhecida. Agora estou me concentrando na carreira no Bellator. Se eu for bem, vamos ver para onde minha carreira vai."
  • Como os estrangeiros veem a capoeira hoje?
    "Hoje eles valorizam muito a capoeira. Tanto que hoje temos a maior exclusiva para capoeira no Canadá, em Vancouver. Eu dou aulas todo dia junto com meu irmão. E todo ano fazemos um grande carnaval para a cidade com nossos alunos."

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