Brasileiro que conquistou Everest diz que 'dialogou com Deus' nas montanhas

Bruno Freitas
Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    Waldemar Niclevicz com a bandeira do Brasil no Everest; alpinista lança novo livro

    Waldemar Niclevicz com a bandeira do Brasil no Everest; alpinista lança novo livro

Poucos homens do mundo têm a experiência existencialista de pensar sobre a vida se equilibrando sobre uma montanha de 8 mil metros. Esse grupo é ainda menor se tomarmos somente a maior delas, o cultuado Everest, na cadeia do Himalaia. Lançando seu quinto livro sobre a trajetória no alpinismo, o brasileiro Waldemar Niclevicz faz parte deste seleto clube. Ele reconhece a altura como um espaço privilegiado da reflexão humana e diz que se comunicou com Deus em diversos momentos.  

Primeiro alpinista do país a conquistar o Everest, em 1995 (ao lado de Mozart Catão), Niclevicz acaba de lançar "O Brasil no topo do mundo". O livro é um apanhado de toda a trajetória do aventureiro paranaense, em um currículo que inclui o K2, considerada a escalada mais difícil do mundo, e os Sete Cumes, circuito pelas maiores montanhas de cada um dos continentes.

O livro de 420 páginas tem prefácio escrito por Pelé e conta com mais de mil fotos, outra paixão do alpinista de 48 anos. Além da experiência de Niclevicz, compila pensamentos sobre os dilemas ambientais do mundo atual e também oferece dicas de montanhas acessíveis para quem deseja se iniciar no universo do alpinismo.

CONTATOS COM DEUS

O brasileiro Waldemar Niclevicz já enfrentou diversas situações no alpinismo internacional, desde uma década antes da primeira experiência no Everest, em 1991. Na maior montanha do mundo (8.848m), situada na fronteira do Nepal com o Tibete, o alpinista relata ter experimentado situações de puro existencialismo. Católico e admirador dos valores do budismo, o paranaense descreve o que chama de diálogos com Deus:

"Essa é uma das coisas que me fez estar no alpinismo. A introspecção de fazer alpinismo. Existem registros disso desde passagens bíblicas. Vejo como uma comunhão íntima com Deus. A relação com Deus na montanha não é a mesma que eu tenho na cidade".

"No livro tem alguns pensamentos, frases em destaque. Um pouco da parte espiritual, íntima do homem com a montanha. Mostro de que forma me sinto tocado intimamente. É uma força divina, transcendental. Mostra que a montanha não é mais matéria inerte, mas um ser pulsante".

"Muitos momentos de intuição vêm do diálogo que tenho com Deus, intuição que atribuo a minha fé. Em alguns momentos entendo que Deus vai guiar meu caminho, pelo menos eu acredito. Não insisto que as pessoas pensem assim também, seria piegas. Mas muitas decisões que salvaram minha vida vieram desta forma de pensar e agir. Em vez de pensar que tudo está perdido, procuro me acalmar e me concentrar para sair da enrascada".

PIOR EXPERIÊNCIA NA MONTANHA

Segundo Niclevicz, foi a intervenção da fé que o ajudou a passar pela experiência mais extrema em escaladas, no desafio do K2, no Himalaia, a mais temida montanha do planeta.

"Passei uma noite a 8.400 metros no K2, sozinho, sem barraca. Sobrevivi. Em nenhum momento achei que iria morrer, que tudo estava perdido. Esperei amanhecer para ter condições de prosseguir na minha descida. Essa foi a experiência mais extrema. Eu estava na zona da morte, com 30% do oxigênio, o risco de um edema cerebral era muito grande. Estava com 30 graus negativos. Felizmente, deu tudo certo".

A RELAÇÃO COM CATÃO

Niclevicz esteve duas vezes no topo do Everest. Na primeira delas, em 1995, teve a companhia de Mozart Catão. O alpinista carioca morreu três anos depois, no Aconcágua. O autor de "O Brasil no topo do mundo" relata que, apesar de repartirem a façanha inédita para o país, os dois nunca chegaram a ser íntimos.

"Nunca tive uma relação muito íntima com ele. Ele foi com os patrocinadores dele. Eu, com os meus patrocínios. Infelizmente não tivemos mais relação de amizade depois do Everest. Eu sou mais romântico, mais introspectivo, ele era mais competitivo, buscava uma performance arrojada. Estilos bastante diferentes. Ele era muito agressivo para mim. Eu sou mais conservador, mais contemplativo".

AS PRÓXIMAS METAS

A carreira de Niclevicz é bastante experimentada, mas ainda não completa. Aos 48 anos, o brasileiro ainda tem como objetivos remanescentes escalar as principais paredes das Cordilheiras nos Andes, combinando a viagem com ações sócio-ambientais nas comunidades locais, e ainda espera terminar o circuito das 14 montanhas com mais de 8 mil metros - já escalou sete delas [só 32 pessoas têm essa façanha].

Reprodução
Capa de "O Brasil no topo do mundo", livro que compila experiências de Niclevicz

Publicação independente, viabilizada por intermédio da Lei Rouanet, o livro de Waldemar Niclevicz está à venda no site "O Brasil no topo do mundo".

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