Após 11 anos, maior duelo do boxe brasileiro terá fim. E graças a um filme

André Uzêda
Do UOL, em Salvador

  • Margarida Neide / Jornal A Tarde

    Holyfield (esq) e Todo Duro em evento de divulgação do documentário "A Luta do Século"

    Holyfield (esq) e Todo Duro em evento de divulgação do documentário "A Luta do Século"

A história é digna de um roteiro de cinema. Dois pugilistas que nutrem uma longeva rivalidade, já no avançar da idade,  voltam aos ringues para o último tira-teima.

É como se Apollo Creed não tivesse morrido no quarto filme da sequência Rocky e desafiasse  agora o personagem homônimo para sacramentar, de uma vez por todas, qual dos dois foi o melhor naquela eterna rusga.

É assim, inspirado na Sétima Arte, que se pode definir o último embate entre os ex-campeões de peso-pesado Reginaldo Holyfield e Luciano Todo Duro, ambos com 48 anos.

Cada um ostenta três vitórias no cartel pessoal contra o adversário. A primeira luta foi em 1996, com vitória por pontos de Todo Duro. Na última, em 2004,  venceu Holyfield.

Neste ínterim, eles se confrontaram -- e se xingaram à exaustão -- embalados por uma rivalidade interestadual: Todo Duro é pernambucano e  Holyfield, baiano.

Donos dos maiores PIBs do Nordeste, Bahia e Pernambuco sempre travaram uma disputa velada pela hegemonia da região. Seja na música (Axé x Frevo), literatura (Jorge Amado x João Cabral de Melo Neto) nos movimentos culturais (Tropicália x Mangue Beat) ou mesmo nas históricas manifestações populares (Revolta dos Alfaiates x Confederação do Equador).

O fato de nenhum dos dois pugilistas jamais ter atingido uma superioridade expressiva sobre o rival, temperado pela rixa entre baianos e pernambucanos, alçou este duelo à condição de 'maior clássico do boxe brasileiro' -- sendo comparado até, com a reserva das devidas proporções técnicas, a outras rivalidades do boxe, como: Ali x Foreman, Tyson x Hollyfield (a quem o pugilista baiano presta homenagem) ou Pacquiao x Mayweather.

Estes mesmos elementos fizeram o cineasta baiano Sérgio Machado (diretor de Cidade Baixa, 2005) despertar para reviver o último duelo entre os pugilistas nas telonas. O filme será em formato de documentário e se chamará a "A Luta do Século".

Para o projeto se viabilizar foram marcadas duas lutas este ano entre Todo Duro e Holyfield. Uma em agosto, no Recife, e outra em dezembro, em Salvador.

O combate será na categoria 86 kg. Holyfield perderá 10 kg e Todo Duro vai precisar ganhar 6 kg para o confronto ser medido em iguais condições.

Apesar de conterrâneo de Holyfield, Machado disse em entrevista ao jornal A Tarde não ter preferência por nenhum dos dois combatentes.

"Me afeiçoiei aos dois. Acho que nem deveria haver desempate para nenhum terminar a história triste", opina.

BRIGA NAS PALAVRAS

Há um outro fator, não menos importante, que faz deste combate tão acirrado. Todo Duro sempre representou o arquétipo do típico malandro, aquele gosta e sabe de provocar. Já Holyfield é pavio curto, como se diz na gíria popular. Se irritava com tamanha facilidade que se tornou alvo fácil das zombarias do pernambucano.

"Já disse isso mil vezes e não me canso de repetir. Quando eu bato em Holyfield sinto que estou batento na Bahia todinha. Voltei para esta luta porque estava com saudades de bater nele. Minha mão toda hora ficava me pedindo pra dar uns bofetões na cara dele", provoca Todo Duro.

"Ele é corno. Ele deixou a mulher dele passear sozinha Bahia e eu mostrei a ela o Pelourinho. Tomei conta dela (risos). Escreva aí! Todo Duro é corno", responde Holyfield.

"Ele apanhou tanto de mim quem nem sabe mais o que diz. Eu que panhei a mulher dele. Ela me viu batendo nele e pediu pra eu dar umas palmadinhas nela também", retruca, aos risos.

"Você não aguenta um murro meu, Todo Duro. Vou te mataaaarrrrr!", finaliza o baiano, já perdendo as estribeiras.

Os duelos entre Holyfield e Todo Duro -- que já teve chuvas de cadeiras, briga na pesagem e porrada ao vivo na TV -- entram agora em contagem regressiva para soar o gongo do derradeiro e definitivo capítulo. E desde já vai deixando saudades...

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