Técnica de rival do Corinthians superou resistência e ignorou machismo

Fábio Aleixo
Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação / Manthiqueira

A Copa São Paulo de Juniores teve mais um inchaço neste ano e quebrou o recorde com a participação de 120 times. E quase todos eles contam com um homem no comando. Nilmara Alves é a exceção. A paulista de 35 anos é a comandante do Manthiqueira, equipe da cidade de Guaratinguetá que nesta quarta-feira, às 18h45, será adversária do Corinthians na primeira fase do mata-mata.

Nilmara trabalha como treinadora há cinco anos, sempre no mesmo clube, o primeiro a lhe dar uma oportunidade. Além dos jovens, dirige também o time profissional que disputa a Série B do Campeonato Paulista, equivalente à quarta divisão.

A ideia de ter uma mulher à frente do clube partiu exclusivamente do presidente Dado Oliveira. Em 2012, resolveu que era hora de dar uma chance à profissional que havia participado de todos os momentos da agremiação antes mesmo de sua fundação - em 2011 - quando como profissional de Educação Física era a responsável por assinar documentos que legitimasse a escolinha de futebol que deu origem à entidade registrada na Federação Paulista de Futebol.

"Ela está conosco de 2004 quando éramos uma escolinha do São Caetano ainda. Precisávamos de alguém com registro no Cref (Conselho Regional de Educação Física) e ela assinava os papéis. Ela conhece nossa filosofia de trabalho, tem muita afinidade. Em 2012, resolvi que era hora de dar uma chance a ela, mas muita gente me chamou de maluco, falando que era loucura, que isso era bobagem e só servia para ganhar mídia. Ouvi muita coisa", disse Dado.

"Quando decidi colocar a Nilmara como treinadora, perguntei a ela o que faria se estivessem gritando Nilmara arrombada, piranha, f.d.p.. Ela me disse que isso faz parte do futebol e não teria problemas. Vi que ela estava pronta para este desafio", contou o dirigente.
 
Nilmara sabe que vive em um ambiente masculino, mas isso não a incomoda. Revela sim que, no início, teve receio de como seria a reação dos torcedores, mas que acabou até se surpreendendo de maneira positiva. Garante que nem liga para o machismo, que ainda se mostra presenta cada vez que ela vai ao banco para dirigir a equipe.
 
"Resolvi aceitar o desafio por ser apaixonada pelo futebol e já ter praticado. Eu conhecia a filosofia do clube. Imaginava que haveria muito preconceito e seria difícil, mas foi mais fácil do que imaginava. O trabalho fluiu bem, a torcida comprou a causa", orgulhou-se Nilmara. "Claro que muitas vezes existem xingamentos por parte dos torcedores dos adversários, mas é normal, como se fosse para um homem. É coisa normal de futebol para atrapalhar a equipe adversária".

Reprodução

"Ouço coisa machista também. Falam que lugar de mulher é no tanque, lavando roupa, ou na cozinha. Encaro mais como uma forma de tentar atrapalhar", minimizou.
 
Nilmara tem bom relacionamento com a diretoria e com os jogadores. Ela garante nunca ter enfrentado problemas de indisciplina. Tem apoio dos atletas e respeito ao trabalho desenvolvido. Mas ela não está livre de resistências na profissão. Seus pais não gostam que ela se dedique ao futebol e faça disso o seu "ganha-pão". 
 
"Meu pai e minha mãe não aceitam muito, não gostam que eu esteja envolvida com futebol, porém respeitam. Mas é aquilo: quando falo que vou trabalhar, não incentivam, não dão apoio. Eles nunca foram a um jogo meu na vida. Sinto falta deste apoio. Mas sabe, é melhor não irem aos jogos. Pode ter xingamento, insulto, e meu pai tem problema no coração", contou.
 
Por ser a única mulher no time, Nilmara segue uma rotina diferente. Quando a equipe chega ao estádio, ela é a última a entrar no vestiário. Dá tempo para os atletas ao menos colocarem o calção antes de entrar para dar instruções. Ao fim do jogo, participa da reza e depois sai para que os atletas possam tomar banho. "É uma relação muito profissional. Se acontecer de eu ver algo não tem problema também", disse.

Meta é trabalhar em um clube grande do país

Nilmara está feliz no Manthiqueira, mas almeja voos mais altos na carreira. Chegar a um clube grande do futebol brasileiro é o seu principal objetivo e espera que isso um dia seja possível.

"Eu acho que agora ainda é difícil. Tem esta barreira, tem este bloqueio com as mulheres. Mas estamos evoluindo cada vez mais, conquistando espaço. Quem sabe no futuro a gente não consiga entrar nestes clubes?", afirmou. "Mas também não descarto a possibilidade de ir para um time de futebol feminino".


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