Ela superou preconceitos e se tornou referência em estatísticas na NFL

Lucas Pastore
Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Cynthia Frelund, analista de desempenho da NFL

    Cynthia Frelund, analista de desempenho da NFL

Se a National Football League (NFL), a liga de futebol americano dos Estados Unidos, e a análise de desempenho costumam ser meios com predominância masculina, uma mulher provou a importância da diversidade neste ano. Trata-se de Cynthia Frelund, que discursou no mais importante evento de estatísticas do seu país para apresentar modelos para técnicos e jornalistas envolvidos na modalidade.

Aos 35 anos de idade, Frelund trabalha cobrindo a NFL com análise de desempenho há cinco. Formada em biologia e com mestrados em análise preditiva (estudo de padrões que predizem comportamento futuro) e empreendedorismo e inovação, ela começou seu trabalho escrevendo sobre futebol americano para a ESPN do país.

Natural de Michigan, Frelund começou a trabalhar na NFL em agosto de 2016 produzindo conteúdo para o site oficial da liga sobre sua especialidade. Na opinião da analista, o trabalho com dados tem crescido gradativamente entre as franquias desde que o início de sua trajetória na modalidade.

"Os times que tradicionalmente usam a análise de desempenho têm uma vantagem. Agora, estão ficando ainda mais inteligentes na aplicação de dados disponíveis", disse Frelund, em entrevista ao UOL Esporte.

Outras ligas de esportes dos Estados Unidos têm histórias famosas ligadas à análise de desempenho. O filme "O homem que mudou o jogo", em que Brad Pitt interpreta o protagonista Billy Beane, mostra como um conceito estatístico mostrado por um analista a um dirigente mudou a maneira como as franquias da MLB, liga americana de beisebol, buscam reforços.

Já na NBA, a liga americana de basquete, a ideia de que arremessos longos de dois pontos deveriam ser evitados já que existem recursos de mais fácil conversão, como bandejas e enterradas, e mais valiosas, as bolas de três pontos, levou à revolução tática que contribuiu para a excelência do Golden State Warriors, atual campeão e favorito ao bi. Entre as mudanças, está o uso de jogadores mais baixos, leves e rápidos na posição 4 no lugar de alas-pivôs mais tradicionais, mais altos, lentos e pesados.

Segundo Frelund, a NFL caminha para revoluções estatísticas do tipo. No futebol americano, os times precisam avançar no mínimo dez jardas por vez e têm quatro tentativas para isso. De acordo com a analista, saber quando arriscar a quarta descida e quando devolver a bola para o adversário será a próxima contribuição dos números para as comissões técnicas.

"No Superbowl, você viu como Doug Pederson, técnico do Philadelphia Eagles se decidiu sobre as quartas decidas. Além disso, diferentemente da MLB e da NBA, a NFL tem um teto salarial rígido. Você tem que estar dentro dos limites impostos pela liga. Por isso, a negociação e a captação de talento são mais importantes", declarou.

Arquivo pessoal

Frelund sabe do que está falando. Se a análise de desempenho é um meio predominantemente masculino em termos de quantidade de profissionais empregados, ela consegue se destacar a ponto de apresentar dois modelos estatísticos na Sloan Sports Conference, mais importante evento dos Estados Unidos sobre o tema.

O primeiro modelo pode ser importado por comissões técnicas por mostrar opções de como montar um ataque eficiente. O outro é voltado para a mídia especializada e mostra como obter resultados mais consistentes em buscas no Google e no Twitter.

Mesmo com tanta informação que disponibiliza após horas e horas de pesquisa, Frelund ainda enfrenta a resistência que técnicos e jornalistas conservadores têm em relação à análise de desempenho. Recentemente, Reggie McKenzie, gerente geral do Oakland Raiders, disse em entrevista à mídia local que utiliza o trunfo apenas se ele confirma suas impressões pessoais.

"Ainda é algo que nós enfrentamos diariamente. Não tenho certeza de quando vamos superar isso", lamentou a analista.

A última temporada da NFL terminou dia 4 de fevereiro, quando o Philadelphia Eagles venceu o New England Patriots por 41 a 33 e conquistou seu quarto título da liga. Desde então, as franquias investem na captação de talento para o Draft, recrutamento anual de calouros que terá sua próxima edição iniciada no dia 26 de abril. Não é diferente para Frelund.

"Tivemos muita sorte nos três últimos anos do Draft com muitos bons jogadores, e acho que vai ser a mesma coisa neste ano. É divertido estar do lado da mídia, porque você não está captando talento para um time específico. Assim, consegue navegar melhor entre os candidatos", afirmou.

O trabalho de Frelund na NFL a torna uma pioneira, já que ainda há pouco espaço para mulheres na liga. Diferentemente do que acontece com a NBA e a WNBA, não há nem sequer uma correspondente feminina, o que restringe ainda mais a oferta de trabalho para o gênero na modalidade.

"Você tem que tentar fazer isso jogar a seu favor. É preciso conquistar a confiança de todos, ter um relacionamento aberto com todos. Eu não cresci dentro da TV. São desafios, porque não existem muitas mulheres com quem eu posso conversar. Nunca sofre nada negativo como assédio, mas é óbvio que nós precisamos de mais diversidade", explicou.

A paixão por seu trabalho faz Frelund misturar a vida profissional e a pessoal quando o assunto é esporte. Originalmente torcedora do Detroit Lions por ser natural de Michigan, a analista leva em consideração o uso de dados quando escolhe outras franquias para seguir de perto – até mesmo quando se trata de outros esportes.

"É complicado porque você começa a seguir seus jogadores e técnicos preferidos, então sou fã do Miami Dolphins. Trabalhei para o gerente geral do Los Angeles Rams, então também torço para eles. No basquete, eu amo Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets, então também torço para eles. Mas também adoro Gregg Popovich, técnico do San Antonio Spurs", revelou.

Mas a relação de Frelund com o esporte extrapola a NFL. Instrutora de pilates licenciada desde 2005, a analista de desempenho tenta fazer história como maratonista. Isso porque já completou provas em 21 dos 50 estados americanos e quer "completar o mapa".

O vôlei de praia completa a lista de esportes que Frelund já praticou.

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