NFL abre temporada em xeque após polêmica com Nike e regra antiprotesto

Thiago Rocha
Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Tasos Katopodis/Getty Images

    Jogadores do Philadelphia Eagles, atual campeão da NFL, durante execução do hino dos EUA

    Jogadores do Philadelphia Eagles, atual campeão da NFL, durante execução do hino dos EUA

Mais popular entre as ligas esportivas dos Estados Unidos, a NFL abre a temporada 2018 nesta quinta-feira (5) sob desconfiança de público e patrocinadores, que viu o campeonato se tornar pano de fundo para discussões sobre preconceito racial e patriotismo, acirradas ainda mais nesta semana com a divulgação de um comercial da Nike com Colin Kaepernick, pivô de protestos que tiraram do sério até o presidente do país, Donald Trump.

A liga tenta estancar uma ferida aberta em 27 de agosto de 2016, quando Kaepernick, então quarterback do San Francisco 49ers, ajoelhou-se à beira do campo durante a execução do hino dos Estados Unidos antes de uma partida de pré-temporada. Foi a forma que encontrou para protestar contra o racismo. "Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro e as pessoas de cor", justificou-se na época. O gesto, no entanto, se espalhou por outras equipes e causou uma crise diplomática.

Reprodução/Twitter
Campanha da Nike com Colin Kaepernick

Herói para muitos que se identificaram com o problema da desigualdade racial, Kaepernick também virou vilão para quem enxergou o ato como um desrespeito patriótico. No fim de 2017, Trump cobrou providências da NFL, que encontrou resistência de alguns donos de franquia em repreender jogadores ou impedir que novos protestos ocorressem.

Para este ano, a liga adotou uma regra antiprotesto. Todos os jogadores e integrantes de comissões técnicas alinhados à beira do gramado serão obrigados a ficar em pé durante a execução do hino nacional, sob o risco de multa. Existe, porém, a opção de ficar nos vestiários ou no corredor de acesso ao campo para quem não quiser participar da solenidade. A associação de jogadores (NFLPA) considerou a resolução arbitrária, elaborada e aprovada sem ouvir a opinião dos atletas.

A troca de ofensas e ameaças entre os envolvidos, que se intensificou no ano passado, deixou o campeonato em segundo plano, arranhando a imagem do futebol americano com o público local, além de gerar reclamações nos bastidores de marcas e empresas que patrocinam o evento. A temporada regular de 2017 registrou audiência 10% menor na TV em relação a 2016. O último Super Bowl, partida que define o campeão da NFL, entre Philadelphia Eagles e New England Patriots, teve a pior audiência desde 2008, embora o número final de telespectadores ainda seja muito expressivo: 103,4 milhões de pessoas.

Levantamento do instituto de pesquisa Civic Science, divulgado em outubro, apontou que 36% dos entrevistados que declararam ter perdido o interesse na NFL culparam os protestos durante o hino norte-americano como razão para deixar de ver jogos na TV. O segundo motivo mais citado foi o excesso de intervalos comerciais, com apenas 6%.

Não será uma rejeição que a NFL conseguirá contornar de imediato. No pré-jogo de Philadelphia Eagles x Atlanta Falcons, jogo que abre a nova temporada nesta quinta, às 21h20 (de Brasília), está prevista a exibição do vídeo (confira abaixo) com a nova campanha da Nike, que traz Kaepernick como protagonista, em comemoração aos 30 anos do slogan "Just Do It", que virou um lema de expansão global da marca.

Com viés político, a publicidade foi lançada na última segunda-feira (3), durante a comemoração do Labor Day, o Dia do Trabalhador nos Estados Unidos. Em outdoors e nas redes sociais, o rosto de Kaepernick aparece estampado com a frase: "Acredite em algo, mesmo que isso signifique sacrificar tudo." Aos críticos, soa como uma afronta à NFL, alvo de uma briga judicial com o quarterback, que acusa a liga de impedi-lo de trabalhar em represália por ser o estopim dos protestos (ele está desempregado desde o início de 2017).

A campanha também provoca uma saia justa comercial, já que a Nike é a fornecedora oficial de material esportivo da NFL, com contrato bilionário e recentemente estendido até 2028.

Com transmissão na TV, NFL segue em ascensão no Brasil

As polêmicas influenciam o futebol americano em seu berço, mas ao redor do mundo a NFL goza de prestígio e projetos ambiciosos de expansão. E o Brasil tem papel de destaque nessa globalização.

Exibido há décadas pela ESPN no país, a NFL convive com crescimento constante de popularidade. No último Super Bowl, a emissora registrou crescimento de 10% na audiência em relação ao ano anterior e foi líder na preferência do telespectador entre os canais por assinatura durante a exibição do jogo decisivo. De acordo com pesquisa do Ibope Repucom, o Brasil já é o segundo maior mercado consumidor de futebol americano fora dos Estados Unidos, atrás apenas do México.

A Inglaterra é outro país com laços duradouros com a NFL. A liga organiza jogos no Reino Unido desde 2007. Neste ano serão três, todos em outubro e no estádio de Wembley, o maior reduto do futebol local: Seattle Seahawks x Oakland Raiders (14/10), Tennessee Titans x Los Angeles Charges (21/10) e Philadelphia Eagles x Jacksonville Jaguars (28/10).

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