Na Argentina só falam de Boca x River: "nada será igual depois desse jogo"

Gustavo Mehl Figueiredo
Colaboração para o UOL, em Buenos Aires (Argentina)

  • Natacha Pisarenko/AP, Victor R. Caivano/AP

Um país inteiro parado. O mundo do futebol, atônito. Nada, nada podia ser maior que uma final de Libertadores entre Boca Juniors e River Plate, clubes que carregam talvez a mais celebrada de todas as rivalidades. O confronto que começa a ser decidido neste sábado, às 18h (de Brasília) dia 10 de novembro de 2018, no mítico estádio de La Bombonera, já tem seu lugar na História e, mais que isso, pode marcar o fim de uma era no futebol sul-americano.

A partir de 2019, a Conmebol vai realizar as finais da Libertadores em jogo único e campo neutro. Esta pode ser a última final em ida e volta da competição. "Isso tá deixando a gente louco. A gente não consegue trabalhar, não consegue dormir, não consegue comer direito, não consegue conversar sem falar disso", conta Cristian Panadeiros, de 44 anos, torcedor fanático do River Plate. "Não há nada que se pareça nem nada que venha a se parecer com o isto que vai acontecer nos próximos dias. Os mais jovens e os mais velhos sabem que o que está por vir é uma batalha épica".

Junto com alguns amigos, 'Pana' é conhecido nas 'tribunas' do Monumental por haver pintado nos anos 90 junto com amigos uma bandeira quadriculada em vermelho e branco com os dizeres "River é Delírio e Carnaval". O 'trapo' se tornou lendário por ter sido estreado justamente em um Superclássico na Bombonera em 1994, em que o time de Núñez saiu vencedor, mas que ficou marcado pela violenta morte de dois torcedores visitantes, emboscados por rivais na saída da partida. Desde então, a bandeira acompanha o time por estádios do mundo todo, do Monumental a Tóquio, no Japão, passando claro por dezenas de 'canchas' brasileiras. "É uma loucura que corre nas nossas veias. Se ganharmos... Se ganharmos, não vamos dormir por semanas", delira emocionado o torcedor.

Torcida única ou público visitante?

Cristian é um dos torcedores que, apesar da memória triste do desfecho daquela tarde de 94, estava animado com a possibilidade de que esta final tivesse, excepcionalmente, a presença de torcedores visitantes nos dois jogos, como chegou a ser cogitado. "Eu sonhei que ia levar meu filho Franco, de 14 anos, para ver a vitória do River dentro da casa deles, como tantas vezes fiz", disse o torcedor, esperançoso.

Acervo pessoal
Cristian já levou sua bandeira para muitos estádios do mundo. Apesar da violência, queria poder pendurá-la junto com seu filho na Bombonera amanhã
Inesperadamente, foi o presidente argentino Mauricio Macri quem ferveu o debate ao anunciar publicamente há uma semana que a final deveria ter torcida visitante. "Essa oportunidade histórica temos que imortalizar como um espetáculo completo, e pra ser completo tem que ter torcida visitante", disse Macri em consonância com os movimentos de torcedores que protestam contra a adoção de certos padrões europeus pela Conmebol e por autoridades do futebol argentino. "Vamos viver uma final histórica e também uma oportunidade de demonstrar maturidade e que estamos mudando, que se pode jogar em paz", publicou o político, que foi presidente do Boca no passado, em sua conta de twitter.

A fala de Macri se encaixa dentro de um contexto em que, dentro de poucos dias, o país vai receber o encontro do G20, a reunião de cúpula das maiores economias do mundo – evento que historicamente é recebido por protestos e confrontos violentos entre polícia e manifestantes anticapitalistas. Além disso, são públicas as intenções de Buenos Aires e da Argentina de, em um futuro próximo, receber megaeventos esportivos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. "Estará a sociedade argentina preparada para uma final da Libertadores entre Boca x River?", escreveu em sua rede social o cientista político Rodrigo Hache, resumindo em uma pergunta aquilo que Mauricio Macri talvez quisesse responder na prática.

Preocupação é com a violência

O fato é que desde 2013 a Argentina já vem proibindo a presença de torcida visitante em jogos do campeonato nacional por questões alegadas de segurança. A intenção é evitar confrontos violentos entre torcedores rivais, mas são muitos os analistas que discutem a eficácia da medida: "É uma tentativa simplista. Infelizmente o que vemos é que de lá pra cá a violência entre torcidas se deslocou para fora dos estádios", conta Nicolás Cabrera, sociólogo argentino, pesquisador do Conicet especializado em violência, segurança e esporte. "Os confrontos entre torcedores migraram para os bairros, as praças, os bailes, o que proporcionou um maior uso de armas de fogo e aumentou de maneira dramática o número de mortos após a implementação da torcida única", completa.

Nem as análises de Cabrera e de outros especialistas foram capazes de garantir a volta da torcida visitante. Nesta semana, a Associação de Futebol Argentino e os presidentes dos clubes terminaram finalmente vetando a presença do público rival, passando por cima de Macri e da vontade de muitos torcedores. Como Luciano Caldarelli, morador de La Boca e torcedor apaixonado do Boca Juniors: "Há anos que defendemos que a festa do futebol argentino tem na disputa entre o canto das torcidas nas arquibancadas o seu elemento mais emocionante. Isso só é possível com a presença dos visitantes". Luciano é membro de um movimento chamado "Boca es Pueblo", ou 'Boca é Povo', que há anos estende na Bombonera uma faixa que diz, no papo reto: "Que voltem os visitantes".

Sócios sem entradas e denúncias de desvios

O acesso dos torcedores rivais é, no entanto, o que menos preocupa os 'bosteros' às vésperas do primeiro jogo. Os próprios torcedores do Boca tiveram dificuldades para conseguir entradas para o jogo deste sábado e muitos ficaram de mãos vazias. O fim rápido das vendas imediatamente gerou denúncias de sócios sobre desvios de ingressos para a venda paralela. No Boca, em teoria, 100% dos ingressos são destinados aos sócios. Mas não é difícil encontrar na internet pacotes exclusivos e caríssimos que aparecem ofertados para turistas e endinheirados. Para esta final, o mercado informal de cambistas chegou a difundir ofertas surreais – e suspeitas – com preços acima de 12 mil reais.

Gustavo Mehl Figueiredo/Colaboração para o UOL
?Boca es Pueblo?: o grupo de Luciano denuncia o desvio de ingressos e pede a volta das torcidas visitantes

Na quinta, sócios do Boca que não conseguiram ingresso foram à porta da Bombonera. Houve protesto e alguns torcedores chegaram a forçar a entrada do setor administrativo do clube. Entre eles, membros do 'Boca es Pueblo'. "Eu consegui meu ingresso, mas vários dos meus companheiros não", conta Luciano. "É irônico, nosso grupo se formou justamente na final da Libertadores de 2012 contra o Corinthians. Naquela ocasião, vários sócios ficaram de fora enquanto apadrinhados da diretoria e turistas ocupavam os lugares dos torcedores fiéis, como nós. Era esperado que ia ser similar para esta final", lamenta.

A última final na Bombonera?

O presidente do Boca, Daniel Angelici, não discorda da afirmação final. "Era previsível, não tem Bombonera que dê conta da procura. Nem duas Bomboneras dão conta", disse em coletiva. De fato, o estádio tem capacidade pra cerca de 50 mil pessoas e o clube tem mais de 100 mil sócios. O presidente, no entanto, apresenta há anos uma saída polêmica: construir um outro estádio e abandonar a lendária casa do Boca Juniors. Dessa vez não foi diferente, Angelici correu pra imprensa e aproveitou a situação para reafirmar seu projeto. "Boca necessita, no mínimo, de um estádio para 80 mil pessoas. É uma coisa que todos os sócios e dirigentes temos que debater seriamente, estamos nos reunindo com grupos organizados de torcedores e sócios para cuidar deste tema", disse.

O 'Boca es Pueblo', claro, não foi convidado para estas reuniões. O grupo é radicalmente contrário ao abandono da Bombonera. Para eles, para além da questão afetiva – e efetiva, já que o Boca em sua casa costuma vencer – com o estádio, por trás do discurso da necessidade de construção de um outro estão interesses econômicos que não têm a ver com benefícios ao clube. "O projeto que se apresenta é a de construção de um 'estádio-shopping', com empreendimentos comerciais, onde o futebol será um detalhe. Não aceitamos", diz Luciano. "De la Bombonera no nos vamos", completa, citando o lema escrito na faixa que costumam levar para os jogos. 

Gustavo Mehl Figueiredo/Colaboração para o UOL
Victor espera os torcedores que não conseguirem ingresso em seu Bar, o Ribera Sur

Ainda que haja revolta, a saída para muitos será mesmo ver o jogo pela TV, de preferência pelas ruas do bairro de La Boca. O próprio 'Boca es Pueblo' vai transmitir o jogo em um telão em frente à sua sede. Pelas ruas, todas as rodas de conversa giram em torno da partida. Se por um lado há muito debate e discussão, por outro a expectativa para a partida é o sentimento mais forte de todos.

Tentando manter-se alheio a problemas mais cabeludos, a uma quadra da Bombonera, Victor toca há décadas seu velho bar, o Ribera Sur. Pelas paredes, pôsteres, flâmulas e bandeiras do Boca comidos pelo tempo e pela poeira. Afastado das polêmicas, o experiente 'bostero' se prepara para receber os torcedores sem ingresso. "Há 40 anos é assim, o bar fica lotado em todo o jogo do Boca. Para este, claro, a expectativa é muito maior!", conta o comerciante, enquanto veste a camisa do time para posar para a foto. "É a final das finais. Nada será igual depois desse jogo". Começa amanhã. 

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