Investigação conclui que 'ação selvagem e fora do controle' matou brasileiro na Austrália

Do UOL, em São Paulo

A Justiça australiana criticou nesta quarta-feira (14) o papel da polícia na morte do brasileiro Roberto Laudisio Curti, que foi vítima de diversos disparos com uma arma de descarga elétrica. A legista Mary Jerram, de Nova Gales do Sul, afirmou que não podia determinar a causa da morte do estudante de 21 anos, em março, mas destacou que "é impossível pensar que teria falecido sem a ação policial".

Todas as recomendações da funcionária foram aceitas pela polícia, incluindo que os cinco agentes envolvidos sejam alvo de uma ação disciplinar e que seja realizada uma imediata revisão dos critérios de uso de armas (de choque) Taser pela polícia local. O chefe de polícia Andrew Scipione afirmou, no entanto, que os Taser podem ser utilizados e que "estas armas salvam vidas". 

Os policiais interpelaram Roberto Curti na rua, após o jovem consumir LSD com dois amigos, acreditando que o brasileiro havia assaltado uma loja de conveniência minutos antes. Roberto recebeu ao menos 14 choques com armas Taser, foi jogado ao chão e teve spray de pimenta pulverizado contra o rosto, em uma ação "negligente, descuidada, perigosa e de força excessiva", destacou Jerram. "Houve abuso da força policial em vários momentos. Eles tiveram comportamento, em parte, de delinquentes", completou.

O uso da arma Teaser foi "selvagem e fora de controle" contra o jovem brasileiro, com os policiais agindo "sem a menor ideia do que havia ocorrido" antes de interpelar Roberto Curti, que gritava com meia tonelada de agentes sobre ele, segundo a legista.

Os policiais afirmaram que Roberto Curti parecia um "super-humano", reagindo com extrema força, mas as câmeras revelam que ele foi rapidamente algemado após ser jogado ao chão.

Mary Jerram concluiu que, mesmo após estar com os braços e as pernas imobilizados, com um agente sobre as suas costas, Roberto Curti foi atingido por disparos de Taser e jatos de spray de pimenta no rosto. Minutos depois, desfaleceu e não pode mais ser revivido.

Parentes de Curti elogiaram as conclusões da Justiça, mas destacaram que continuarão lutando por uma punição para os policiais. "Sabemos que nada vai devolver Beto, mas continuaremos lutando para que os responsáveis enfrentem as consequências deste comportamento escandaloso naquela noite", afirmou à imprensa Michael Reynolds, porta-voz dos familiares do brasileiro.

Asfixia e falta de socorro

Em outubro, um dos policiais julgados pela morte de Curti afirmou que não seguiu os procedimentos básicos de primeiros socorros quando o jovem perdeu a consciência. Scott Edmondson contou no Tribunal de Glebe que verificou o pulso do estudante várias vezes depois que o jovem parou de reagir, mas admitiu que não o colocou em posição de recuperação porque estava mais preocupado em evitar que o brasileiro tentasse fugir outra vez. 

Médicos recomendam posicionar a pessoa inconsciente de lado para evitar a asfixia. Imagens divulgadas pela Justiça da câmera de uma das armas dos policiais mostram Curti deitado com as costas no chão enquanto os policiais tentam contê-lo. Ele teria morrido por asfixia, depois de ser atingido por pelo menos cinco dos 14 choques. De acordo com um parente do brasileiro, a asfixia teria sido causada porque o garoto, já no chão e imobilizado, teve o corpo "fortemente pressionado" pelos policiais.

Imagens de segurança

Novas imagens de mais de 50 câmeras de segurança registraram os últimos momentos do estudante, desde a hora em que ele saiu de uma casa noturna até a perseguição policial que culminou na sua morte. 

O filme da loja de conveniência de onde Curti teria roubado dois pacotes de biscoitos mostra ele agitado e invadindo a área privativa do caixa da loja aos pulos. O vendedor faz um gesto, aparentemente mandando-o sair. O funcionário teria dito à polícia que o garoto "não queria roubar nada e pediu os biscoitos".

Não foi o vendedor, mas um gari quem chamou a polícia para coibir o suposto roubo. Os policiais, por sua vez, disseram ter recebido a informação de que Curti estaria armado. (Com agências internacionais)

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