ONU julga prematuro inquérito independente sobre ataque em Kunduz

Nações Unidas dizem que vão aguardar resultados das investigações da Otan e dos EUA antes de agir. Médicos Sem Fronteiras acusa forças afegãs e americanas de crime de guerra e exige apuração independente.

A Organização das Nações Unidas declarou nesta segunda-feira (05/10) que vai aguardar os resultados das investigações da Otan e dos Estados Unidos sobre o bombardeio de um hospital em Kunduz, no Afeganistão, antes de iniciar seu próprio inquérito sobre o caso.

A organização de ajuda humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) havia exigido uma investigação independente sobre o ataque que matou 22 pessoas no último sábado. Entretanto, o porta-voz da ONU Stephane Dujarric disse que ainda é cedo para dizer se essa medida será de fato necessária.

"Ainda estamos nos primeiros dias. Vamos aguardar para ver o que irá resultar das investigações oficiais dos EUA e da Otan e, possivelmente, dos afegãos", afirmou o porta-voz. "O que buscamos é uma investigação crível e transparente."

Investigações por tempo prolongado

O secretário de Defesa dos EUA, Ashton Carter, lamentou a "trágica perda de vidas", mas disse que as investigações deverão ocorrer por um tempo prolongado. "A situação é bastante confusa e complicada por lá, mas nós iremos nos ater aos fatos e seremos transparentes ao compartilhá-los", declarou. O presidente americano, Barack Obama, também prometeu que o incidente será investigado em sua totalidade.

O general americano John Campbell admitiu que aeronaves militares de seu país teriam atacado o hospital, mas afirmou que estariam apenas respondendo a apelos de seus aliados afegãos que combatem o Talibã.

"O ataque aéreo foi pedido para eliminar a ameaça talibã, e vários civis foram acidentalmente atingidos", informou o general. No total, 12 membros do MSF morreram em razão dos bombardeios, além de dez pacientes, incluindo três crianças.

A MSF, que encerrou suas operações em Kunduz após o ataque, acusa os americanos de não assumirem suas responsabilidades em relação ao ocorrido, e de terem cometido crime de guerra ao atacar o hospital.

A organização considerou inadequada a justificativa americana para o bombardeio ao hospital. Segundo a MSF, o edifício central do centro de saúde, que abrigava a unidade de tratamento intensivo e salas de emergência, foi atingido "repetidas vezes com muita precisão" a cada quinze minutos, durante uma hora, apesar de insistentes ligações telefônicas feitas pelo hospital aos comandantes militares.

O diretor geral da MSF, Christopher Stokes, apontou que versão dos americanos sobre o ataque foi modificada diversas vezes, passando de "danos colaterais a um incidente trágico, e agora tentam repassar a responsabilidade ao governo afegão".

Crime de guerra

Stokes rebateu acusações de autoridades afegãs de que jihadistas utilizavam o hospital como posição de ataque a forças de segurança e a civis. Segundo ele, as declarações sugerem que as forças afegãs e americanas decidiram atacar um hospital com mais de 180 profissionais e pacientes sob a alegação de que haveria talibãs no local.

"Isso implica numa admissão de crime de guerra, e contradiz totalmente as tentativas iniciais do governo americano de minimizar o ataque ao considerá-lo um 'dano colateral'", acusou Stoke. "Sob a clara presunção de que um crime de guerra foi cometido, a MSF exige uma investigação total e transparente do incidente, a ser conduzida por um órgão internacional independente", reiterou.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, afirmou que, se for constatado em um tribunal que o ataque foi proposital, "isso pode ser considerado crime de guerra".

O presidente afegão, Ashraf Ghani, está sob forte pressão em razão do incidente, que gerou revolta no país em razão do relacionamento próximo do governo afegão com os EUA.

Políticos de oposição acusam Ghani de se omitir em relação ao ataque. O porta-voz da presidência condenou o incidente, mas ressaltou que "civis estavam sendo utilizados como escudo" no local.

Os EUA e o Afeganistão são signatários das Convenções de Genebra, que estabelecem as condutas em tempos de guerra e ocupação, e são obrigados a processar criminalmente quem comete violações graves dos tratados ou a entregá-los a outros Estados para que sejam julgados.

RC/rtr/afp

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