Com 25 cômodos e vista de Manhattan, casa de mafioso vai a leilão por ao menos US$ 5,5 mi

Matt A.V. Chaban
Fort Lee (Nova Jersey, EUA)

  • Kirsten Luce/The New York Times

    Interior da antiga casa do mafioso Albert Anastasia em Fort Lee, Nova Jersey; imóvel de 25 quartos irá a leilão em dezembro

    Interior da antiga casa do mafioso Albert Anastasia em Fort Lee, Nova Jersey; imóvel de 25 quartos irá a leilão em dezembro

O sangue da Máfia tingiu muitos cantos dessa metrópole. Five Points. As docas Red Hook. Meadowlands. Harlem. O litoral sul de Staten Island.

Embora este bairro arborizado de North Jersey possa parecer uma capital improvável no mapa do crime, em meados do século 20, foi o lar de alguns dos mafiosos mais notórios da região: Joe Adonis, Longie Zwillman, Willie Moretti, e o mais famoso e temido de todos: o chefe da Murder Inc., Albert Anastasia.

Para aqueles que desejam viver como um Don Corleone --e estiverem dispostos a morar com alguns fantasmas-- a Guernsey's vai leiloar a antiga casa de Anastasia em 8 de dezembro, por um valor mínimo de US$ 5,5 milhões (R$ 20,9 milhões).

Esse preço pode ser considerado uma pechincha agora, com mansões pipocando em quase todos os quarteirões. Logo ao lado, uma casa de sete quartos e 1.250 metros quadrados, construída em 2007, chegou ao mercado em junho por US$ 18,9 milhões.

Mas quando August Kleinzahler viveu aqui na década de 1950, o bairro de Palisades, em Fort Lee, era mais modesto e um dos lugares mais idílicos que se podia encontrar: belas casas de estilo Tudor e georgiano, e vistas deslumbrantes de Manhattan.

A casa de sua melhor amiga Gloriana Anastasia, uma mansão no estilo das Missões, em 75 Bluff Road, era maior do que a maioria --quando foi construída, em 1947, a ampla casa de 25 cômodos arruinou a vista dos Kleinzahler. Mas levando em conta tudo o que o jovem August sabia, não era nada especial ter como babá um italiano rude de 110 kg, de chapéu fedora e arma no cinto, como tinha Gloriana.

"Ele era a melhor babá do mundo", disse o famoso poeta Kleinzahler, sobre o guarda-costas de sua amiga numa entrevista por telefone, de San Francisco.

"Ele ficava sentado lá, com seu revólver brilhando ao sol, enquanto nós brincávamos no tanque de areia --nós nunca fomos na casa de Gloriana-- e minha mãe sabia que podia sair para fazer compras sem se preocupar com nada."

Meyer Liebowitz/The New York Times
O gângster Albert Anastasia foi morto a tiros na cadeira de seu barbeiro no Park Sheraton Hotel, em Nova York, em 25 de outubro de 1957

Em 25 de outubro de 1957, tudo isso mudou. Quando Kleinzahler voltou da escola, repórteres, cinegrafistas e caminhões de notícias estavam aglomerados em frente aos portões de dois metros de altura dos Anastasia.

"Eu perguntei à minha mãe o que havia acontecido, e ela disse que o pai de Gloriana tinha ficado muito, muito doente, e então Gloriana e sua mamãe teriam de ir embora por um tempo", ele lembra.

Naquela manhã, Albert Anastasia tinha saído de casa com o motorista para sua visita regular ao barbeiro no Sheraton Park Hotel (hoje Park Central), no centro de Manhattan. Ele nunca deixou a cadeira do barbeiro. O Senhor Grande Executor estava morto.

Ao longo dos anos, o nº 75 da Bluff Road continuou atraindo personagens exóticos, e é impossível adivinhar que pode ser o próximo.

Após a morte de Anastasia, Del Webb, poderoso construtor do sudoeste e ex-proprietário dos Yankees, ajudou a comprar o imóvel de 25 cômodos para seu amigo Buddy Hackett, comediante e astro de "Love Bug" que se apresentava com frequência nos casinos de Webb em Las Vegas.

Quando ele se mudou para Hollywood, a casa passou para Arthur Imperatore Sr., o magnata dos caminhões e balsas que transformou um único caminhão de entrega em um império de bilhões de dólares e as docas abandonadas de Weehawken no país das maravilhas dos apartamentos.

"Passamos dez anos procurando uma casa para minha mulher, e no momento em que colocamos os pés na propriedade, eu soube que era ela", disse Imperatore na semana passada. "Era uma espécie de retiro, um casulo, mas ainda assim no meio da movimentação."

Imperatore, 90, decidiu vender após a morte de sua esposa no início deste ano.

Um dos motivos pelo qual o preço da casa é relativamente modesto pode ser porque a propriedade de Anastasia está notavelmente intacta, talvez até demais. O Hackett e os Imperatore não mudaram muita coisa, e nos últimos anos a pintura começou a descascar e o gesso começou a se desfazer.

Ainda assim, o telhado, a lareira de mármore e os jardins estão bem preservados. Os tapetes felpudos e as janelas simples provavelmente sairão, mas a vista que se estende desde a ponte George Washington até o World Trade Center não pode ser substituída. Cozinhas e banheiros estilo vintage têm quase tantos azulejos quanto Pompeia.

Kirsten Luce/The New York Times
28.out.2015 - Roleta antiga fica no porão da casa do mafioso Albert Anastasia

"Dadas as conexões que ele tinha, é possível imaginar Anastasia chegando no sindicato dos azulejistas, e antes que você se desse conta, uma dúzia dos melhores caras estariam aqui", disse Arlan Ettinger, presidente da Guernsey e amigo de longa data dos Imperatore, durante uma passeio na semana passada.

Embora sob muitos aspectos a casa pareça uma propriedade convencional do início do pós-guerra, alguns detalhes entregam sua origem violenta. As paredes exteriores de estuque têm quase 30 centímetros de espessura, e cada quarto tem duas ou mais portas, para fugas rápidas.

Sandy Hackett, filho do comediante, lembrou uma parede falsa no armário de sua irmã, que levava a um quarto de hóspedes (a passagem parece ter desaparecido hoje), e havia rumores de um túnel que entrava na costeira.

O porão poderia rivalizar com a maioria das casas em tamanho e opulência, com uma dúzia de cômodos, inclusive um que Hackett transformou numa sala de projeção, com bar e uma loja de doces decorativa, e que permanece intacto até os projetores originais.

Além disso, há uma estranha sala azulejada com um ralo no chão e nada mais. O jovem Hackett disse que seu pai a transformou num quarto escuro para revelar filmes, mas quando ele perguntou sobre a sala quando era criança, disseram que o local era usado para cortar veados depois de viagens de caça.

"Sempre que você entrava lá, estava normalmente cinco graus mais frio, era estranho e assustador", disse Hackett em uma entrevista por telefone, de Los Angeles. "Não sei sobre os veados, mas eles definitivamente matavam alguma coisa lá dentro." Os Imperatore colocaram uma sauna e uma jacuzzi no lugar.

Imperatore tinha seu estilo próprio, com pavões e galinhas-d'angola passeando pela propriedade de 5.200 metros quadrados. Um bando de periquitos fugiu uma vez e ainda vive lá, fazendo algazarra entre as estátuas e as fontes do pátio.

A casa também lhe serviu por mais tempo, e melhor, do que a Anastasia.

O governo a usou contra ele quando o acusou de sonegação fiscal. O enteado de Imperatore, Armand Pohan, advogado e vereador em Fort Lee, lembra que um juiz lhe contou que, na época do julgamento, a promotoria pegou a planta da casa, construiu um modelo e apresentou-a ao tribunal nos anos 1950.

"Eles perguntaram ao júri: 'como um homem que diz não ter nenhuma renda nos últimos cinco anos constrói uma casa como esta?'", disse Pohan. "Esta foi a Prova A. E eles ganharam."

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