A história de Mossul, cidade de musselinas e tesouros históricos

De Bagdá

  • Felipe Dana/AP

    Mossul era o último grande reduto urbano do Estado Islâmico no Iraque

    Mossul era o último grande reduto urbano do Estado Islâmico no Iraque

"Libertada" neste domingo (9) do jugo dos extremistas do grupo Estado Islâmico (EI), Mossul outrora foi conhecida por suas finas musselinas e seus tesouros arqueológicos.

Último grande reduto urbano do EI no Iraque, a segunda maior cidade do país ficou destruída em grande parte após nove meses de combates entre o rebeldes e as forças iraquianas. 

Fadel Senna/AFP

Comércio, petróleo

Atravessada pelo rio Tigre e situada a 350 km ao norte de Bagdá, Mossul é a capital da província de Nínive, rica em petróleo.

Cidade de maioria sunita numa região premoninantemente curda, tradicionalmente tinha numerosas minorias em sua população (curdos, turcomanos, xiitas, cristãos...).

Mossul, uma tradicional rota comercial entre Turquia, Síria e o resto do Iraque, era muito conhecida por seus finos tecidos de algodão, as musselinas, seus monumentos e sítios arqueológicos e também pelos parques.

Mas a região se tornou um terreno de violência diária após a invasão americana ao Iraque, em março de 2003.

A invasão provou a queda do regime do ditador Saddam Hussein. 

Ahmad Al-Rubaye/AFP

Laboratório

Último feudo do partido Baas, de Saddam, a cidade se transformou, mais tarde, na fortaleza da rede terrorista Al-Qaeda.

Em 10 de junho de 2014, no segundo dia de sua fulgurante ofensiva no Iraque, os jihadistas do "Estado Islâmico do Iraque e do Levante" (EIIL) tomaram Mossul, que à época, tinha 2 milhões de habitantes, aproveitando-se de uma debandada do exército iraquiano.

Em 29 de junho, o EIIL, comandado por Abu Bakr Al Baghdadi, proclamou um califado nos territórios conquistados no Iraque e na vizinha Síria e mudou de nome para Estado Islâmico. Em 5 de julho, Baghdadi apareceu pela primeira vez em um vídeo, em oração na grande mesquita de Mossul.

Os jihadistas fizeram da cidade um laboratório de sua administração. Ali, decidiram os programas escolares, horários de funcionamento de lojas, os trajes permitidos. Foi proibida a venda e o consumo de álcool e tabaco.

Milhares de habitantes fugiram, principalmente os quase 35 mil cristão que viviam ali. Eles receberam um ultimato do EI: se converter ao Islã, pagar uma taxa especial ou abandonar a cidade, sob pena de execução. 

Ahmad Al-Rubaye/AFP

Patrimônio destruído

A partir de julho de 2014, o EI atacou mausoléus xiitas e santuários, que eram ricamente decorados. O grupo explodiu a mesquita onde ficava a tumba do profeta Jonas (Nabi Yunés). Em 19 de junho de 2017, destruiu a emblemática mesquita Al Nuri, onde Baghdadi tinha sido filmado, e seu minarete inclinado do século XII.

No museu de Mossul, o mais importante do Iraque depois do de Bagdá, os radicais queimaram livros e manuscritos antigos, destruíram tesouros pré-islâmicos, como os famosos touros alados assírios com rosto humano, datados de vários séculos antes do cristianismo. 

História de tormentas

Situada em frente às ruinas da antiga Nínive, na Alta Mesopotâmia, Mossul foi conquistada pelos árabes em 641.

A cidade se tornou o principal polo comercial da região por sua localização, no cruzamento das rotas entre Síria e Pérsia, e alcançou seu apogeu no século XII.

Conquistada e saqueada pelos mongóis (1262), passa, depois, à dominação persa e, mais tarde, otomana.

Em 1918, a Grã-Bretanha anexa essa região petrolífera ao um Iraque sob domínio britânico, enquanto a França queria uni-la à Síria, controlada pelos franceses. A Turquia protesta, mas a Liga das Nações confirma a anexação em 1925.

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