"Estado Islâmico" pós-califado mantém ameaça e é mais difícil de combater

Lewis Sanders

  • Felipe Dana/AP

    Estado Islâmico ocupava Mossul desde 2014; organização perdeu área

    Estado Islâmico ocupava Mossul desde 2014; organização perdeu área

Organização perdeu Mossul, sua principal base base no Oriente Médio. Mas ameaça ainda está longe do fim: extremistas conseguiram exportar seu modelo de terror, numa jihad descentralizada difícil de se combater.

"Anuncio o fim, o fracasso e o colapso do estado de falsidade e terrorismo que o 'Estado Islâmico' havia declarado em Mossul", declarou em tom triunfal o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, após a expulsão do grupo terrorista da estratégica cidade. Mas, embora a campanha para libertar Mossul tenha sido bem-sucedida, ainda não é o fim do "Estado Islâmico" – que emergiu em 2006 e que, uma década depois, transformou-se em um fenômeno global.

Na sequência da vitória em Mossul, os esforços internacionais passaram a focar na erradicação do grupo de seu bastião na Síria, Raqqa. As forças democráticas sírias, apoiadas pelos EUA, uma aliança liderada por combatentes locais curdos, ganharam terreno na batalha por Raqqa. Mas centenas ou até milhares de terroristas conseguiram fugir para a fronteira sírio-iraquiana e até para fora da região.

O EI ganhou notoriedade em junho de 2014, quando lançou uma campanha militar truculenta e capturou grandes territórios no Iraque e na Síria, culminando na ocupação de Mossul. No final daquele mês, o líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi, anunciou da histórica Grande Mesquita de Mossul o estabelecimento de um califado mundial.

"Na minha opinião, o Isis [sigla em inglês para Estado Islâmico no Iraque e na Síria] é uma organização iraquiana e, por isso, sua derrota no Iraque vai quebrar sua espinha dorsal, mesmo que os restos continuem aqui e ali, ou se pessoas violentas ou grupos de países não árabes usarem seu nome", opina Yezid Sayigh, do instituto Carnegie Middle East.

Khalid al Mousily/Reuters
Área comercial de Bagdá, onde terroristas detonaram um carro-bomba em 3 de julho de 2016

Jihad descentralizada

Mas, apesar de suas perdas, o grupo continua a se manter em partes do Iraque e da Síria, especialmente perto da região fronteiriça. Tomas Olivier, especialista em inteligência e contra-terrorismo da consultoria Twickelerveld Intelligence and Investigations, diz que mesmo enfrentando um conflito aberto no Iraque e na Síria, o "Estado Islâmico" conseguiu exportar seus braços operacionais para fora da região, chegando a lugares do norte da África, da Europa, do Sudeste Asiático e da África Oriental e Ocidental.

"O fato mais perturbador sobre a atual organização do Isis é a sua flexibilidade de resposta mesmo depois de uma derrota. Aparentemente eles conseguiram estabelecer uma série de centros operacionais em todo o hemisfério ocidental com a capacidade comprovada de – em termos militares – atacar 'sob demanda' ou com base em motivação ideológica", afirma Olivier.

Ex-funcionário sênior do Ministério da Defesa holandês, Oliver afirma ainda que, enquanto monitorava a mais recente atividade online do grupo, testemunhou um aumento desconcertante de mensagens que falam em cometer ataques contra os "cruzados" usando qualquer meio necessário.

"O Isis está promovendo uma jihad descentralizada com atenção específica aos ataques de lobos solitários no Ocidente e contra alvos da coalizão em todo o mundo, das ruas de Manchester a Marawi nas Filipinas", completa.

Reprodução/Twitter Vian Dakhil
Adolescente alemã Linda Wenzel, que fugiu para o Estado Islâmico em 2016 e foi capturada entre os combatentes jihadistas em Mossul

A perspectiva da criminalidade

Na sequência da ascensão do grupo, em 2014, mais de 5 mil cidadãos europeus viajaram ao Oriente Médio para lutar ao lado do "Estado Islâmico". Com a perda de território na região, as autoridades internacionais alertaram sobre a possível volta dos combatentes estrangeiros aos seus países de origem na Europa e em outros lugares.

Um estudo publicado no ano passado pelo Centro Internacional para o Estudo de Radicalização e Violência Política do King's College, em Londres, mostrou que cerca de metade de todos os combatentes estrangeiros europeus tinha antecedentes criminais antes da radicalização.

Em sua edição de maio, a revista do "Estado Islâmico" Rumiyah apresentou táticas terroristas para seus apoiadores, instando-os a adquirir armas "por meio de negociantes e redes criminosas subterrâneas", mirando naqueles capazes de cultivar essas conexões". O artigo mostrou a vontade do grupo de usar redes mais amplas que do que suas convencionais ou religiosas.

Muitos dos terroristas na Europa tiveram uma história de pequenos crimes, incluindo o suspeito de ataque de Berlim, Anis Amri, e Salah Abdeslam, que lidou com a logística dos atentados de Paris em 2015. Ian Oxnevad, um estudioso do Oriente Médio na Universidade da Califórnia em Riverside, diz que uma estratégia de combate ao terrorismo para enfrentar o problema do retorno de combatentes estrangeiros é empurrá-los para atividades criminosas, pressionando suas redes financeiras.

"Por exemplo, se você tem ex-combatentes do Isis em uma célula no norte da Itália, mas todo o dinheiro que eles estão usando para patrocinar terrorismo não está integrado no sistema financeiro, eles vão ter que manter esse financiamento recorrendo ao crime", explica Oxnevad. "Se eles estão cometerem roubos, roubos a banco ou negociação de peças de automóveis no mercado negro, isso aumenta a probabilidade de eles serem presos, ao contrário do que ocorreria se eles aceitassem doações."

Getty Images/istockphoto

Ideologia sem fim

Ainda que a perspectiva da derrota militar do EI no Iraque e na Síria aumentou a esperança para o fim do grupo, as ideias que o impulsionaram para a notoriedade continuam a ser acessíveis por meio de redes sociais, repositórios digitais e arquivos online.

Oxnevad observa que, mesmo que o grupo seja "afastado de um mapa", isso não significa que a ideologia que propaga esse extremismo deixará de existir, especialmente com a declaração de Estado feita por Baghdadi em Mossul. "Você vê isso com grupos neonazistas e o Terceiro Reich e Você vê o mesmo até na Rússia com a União Soviética", diz Oxnevad.

"É a ideia de recuperar algo que foi perdido, ou, pelo menos, recriar. Isso é algo do que o mundo terá que aprender a ser proteger de todas as maneiras possíveis."

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