Mulher reaparece após 42 anos, mas guarda mistério sobre desaparecimento

Michael Hill*
Da Associated Press, em Monticello (Nova York)

  • Seth Wenig/ AP

    Foto de Flora Stevens da ficha de emprego de 1975 usado para ajudar a solucionar casos de pessoas desaparecidas em Monticello, Nova York

    Foto de Flora Stevens da ficha de emprego de 1975 usado para ajudar a solucionar casos de pessoas desaparecidas em Monticello, Nova York

A mente de uma mulher de 78 anos estava nublada pela demência. Mas ela reconheceu uma morena com um leve sorriso em uma imagem desbotada da década de 1970 que os detetives a mostraram.

"Eu", disse a mulher com uma voz que mais parecia um sussurro.

A imagem ajudou os investigadores que visitavam no último mês uma casa de cuidados perto de Boston, onde foi finalmente confirmado que eles encontraram Flora Stevens. Ela era uma funcionária do hotel "Catkills", em Nova York, que recebia US$ 2,25 por hora (cerca de R$ 7,40), quando foi deixada em um hospital em uma noite de verão de 1975 e desapareceu.

A descoberta de uma mulher desaparecida por 42 anos chamou atenção. Na mídia apareceu uma foto divulgada pela polícia de uma mulher sorridente em uma cadeira de rodas com um urso de pelúcia no colo e rodeada de detetives.

Mas a alegria foi misturada com um mistério. Onde ela esteve durante todos esses anos? Ela estava fugindo? Do quê? Os investigadores conseguiram juntar algumas das peças do quebra-cabeças, incluindo períodos em outras casas de cuidado. Mas com as condições atuais da mulher e a passagem do tempo, muitos outros detalhes talvez nunca poderão ser descobertos.

"Para ser honesto, eu acho que ela realmente não queria ser encontrada", disse Festus Mbuva, um ex-funcionário de uma casa de cuidados que ajudou a cuidar da mulher por mais de uma década. "Você pode dizer que algo aconteceu em seu passado que ela não queria guardar".

Florence "Flora" Stevens estava entre centenas de funcionários de hotéis que uma vez lotaram essa região cheia de lagos ao norte da cidade de Nova York, a cada verão. Ela trabalhou em diversos verões para o "The Concord", um resort de 1200 quartos que já foi considerado uma joia da rede Borscht Catskills.

Um registro de trabalho no "The Concord" de 1975, que tinha a assinatura de "Sra. Flora Stevens" em letra cursiva, diz que ela estudou o ensino médio a menos de duas horas de distância, na cidade de Yonkers.

O homem que ela classificou como seu marido, Robert Stevens, também trabalhou lá, embora não esteja claro o que ele fez por lá. A polícia não confirmou que eles eram realmente casados. Os documentos dela não incluem números de telefone ou endereço local e ela registrou um endereço em Seattle.

Na noite de domingo de 3 de agosto de 1975, Flora Stevens, então com 36 anos, foi deixada por Robert Stevens em um pequeno hospital a algumas milhas do hotel em Monticello, que na época era um movimentado centro turístico.

Delegacia de Sullivan via AP
Foto divulgada em outubro de 2017 mostra Flora Harris (centro) com o policial Ed Clouse (esq.), da delegacia de Sullivan, e o detetive Rich Morgan, na casa de assistência em Lowell, Massachusetts

Duas horas depois, ele veio buscá-la. E ela tinha desaparecido.

As autoridades dizem que não podem divulgar por que ela foi ao hospital naquela noite, devido às leis de privacidade, e eles não sabem o que ela fez, uma vez que ela foi deixada. Mas havia uma estação de ônibus nas proximidades, e ela poderia ter algum dinheiro naquela noite de domingo.

"Ela tinha acabado de ser paga, provavelmente teve um final de semana cheio de dinheiro em seus bolsos", disse o detetive Rich Morgan, xerife do Condado de Sullivan.

Robert Stevens relatou seu desaparecimento pouco depois. Funcionários temporários desapareciam o tempo todo, e esse não merecia nenhuma história nos jornais locais. Mas Art Hawker, um jovem detetive em 1975, disse que deu atenção extra a esse caso porque como ela foi vista pela última vez por um companheiro, ele levantou "bandeiras vermelhas" para o caso.

O desdobramento do caso só foi ocorrer em setembro deste mesmo ano com a descoberta de restos mortais a leste de Monticello que combinavam com as características gerais de Flora Stevens.

Isso acabou por ser uma falsa ligação, mas levou Morgan e o detetive Ed Clouse a conferirem mais recentemente bancos de dados disponíveis que apresentaram alguém em Lowell, Massachusetts, que teve o nome do seguro social de Flora Stevens e um nome similar, Flora Harris.

Flora Harris esteve na casa de cuidados "CareOne" em Lowell, desde 2001. Ela tinha um guardião nomeado pelo tribunal do Estado de Nova York, que pagava suas contas. O registro é irregular antes disso, embora as autoridades dissessem que ela tinha um tutor prévio de meados de 1987 e que eles passaram parte daquele tempo em casas de cuidados em Nova York e New Hampshire.

Mbuva, que deixou "CareOne" em dezembro do ano passado, disse que a mulher raramente falava sobre sua família, além de dizer que ela veio de um casamento ruim e que seu marido tinha sido abusivo. A polícia de Nova York disse que não iria comentar essa afirmação.

Ao longo dos anos, Mbuva recolheu algumas outras dicas: Stevens cresceu em Yonkers, foi uma cabeleireira e foi ao festival de Woodstock de 1969, diziam os registros do The Concord.

Mas Mbuva notou que ela nunca desistiu de si mesma. "Sua frase favorita era 'isso não é de sua conta.'"

Seth Wenig/ AP
Hoje, o hospital Monticello está abandonado

No mês passado, os detetives Morgan e Clouse dirigiram-se para Lowell. Eles não foram capazes de encontrar parentes vivos. Mas eles vieram carregados de fotos que esperavam que desencadeassem memórias em Flora.

Isso, aparentemente, foi um bom dia. Ela reconheceu a sua própria imagem e a de Robert Stevens – ela pronunciou a palavra "Robert". Ela também recebeu um cartão postal do "The Concord" com um casal feliz em primeiro plano.

"Ela disse 'uau'", disse Morgan. "Ela não deixaria essa foto passar".

Enquanto a polícia foi capaz de fechar o caso de pessoas desaparecidas, as perspectivas de descobrir mais coisas sobre esse caso não são claras.

Robert Stevens morreu em 1985. O "The Concord" fechou em 1998. O hospital onde Flora Stevens foi deixada está abandonado. E a mulher no centro do mistério revela pouco. Os administradores da casa de cuidados "Lowell" recusaram os pedidos da Associated Press para entrevistar Flora Stevens.

"A maioria dos segredos estão trancados dentro da Flora", disse Morgan. "E eu não acho que nós os teremos."

* Philip Marcelo contribuiu para a reportagem

Tradutor: UOL
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