Joanesburgo tem milhares de pessoas vivendo em prédios abandonados e não sabe como resolver o problema

Da AP

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    Makanake Angel, 2, dorme na cama da mãe em um prédio ocupado em Joanesburgo

    Makanake Angel, 2, dorme na cama da mãe em um prédio ocupado em Joanesburgo

Um rato faz uma pausa no chão encharcado antes de desaparecer debaixo de uma cama. Em algum lugar na tenda grande e lotada um bebê, nascido três dias antes, chora. Lá fora, as mulheres se reúnem em torno de uma fogueira que serve como fogão e fonte de calor para a noite.

"Esta é a minha casa", afirmou Alisa Jozana, 37, espreguiçando os braços e sorrindo ironicamente. Casa é o sofá estreito onde ela se senta. A mulher conta que está aqui desde julho. "Ninguém se importa conosco. Ninguém."

Uma série de barracas na beira de um campo de esportes é o que a cidade de Joanesburgo, na África do Sul, considera como moradia alternativa apropriada até que algo mais permanente seja arranjado. Mais de 200 pessoas moram ali, todas despejadas de edifícios da cidade que as autoridades dizem ter sido "sequestrados" por invasores.

Cerca de 100 mil pessoas, de acordo com algumas estimativas, estão vivendo em centenas de edifícios abandonados na região central de Joanesburgo, uma das cidades mais ricas da África, mas também uma das mais desiguais do mundo, segundo o Banco Mundial. O prefeito quer os ocupantes sejam expulsos para dar lugar a uma revitalização urbana, com propostas para expropriar edifícios e entregá-los a construtores privados.

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Moradores vivem em tendas providenciadas pelo governo em Joanesburgo

"A cidade confirma que, até março, 432 edifícios estavam ocupados", disse, o porta-voz do gabinete do prefeito, Omogolo Taunyane, em um e-mail. O prefeito está empenhado em encontrar soluções para "trazer dignidade de volta aos nossos moradores mais pobres", afirmou Taunyane.

É por vezes perigoso morar em um edifício abandonado. No mês passado, três crianças foram mortas quando um muro desabou sobre eles no prédio em que suas famílias compartilhavam com outras 300 pessoas. Durante oito meses, os moradores pediram aos funcionários municipais por uma habitação de emergência, sabendo que as condições no edifício não eram seguras. A cidade falhou com eles, disseram os advogados.

Alguns dos quarteirões decadentes de Joanesburgo foram transformados em locais de luxo com galerias de arte e cafés, nos primeiros passos para restaurar a vibração do centro da cidade de onde muitos fugiram nos anos seguintes ao regime do apartheid, que terminou no início dos anos 1990.

Mas o prefeito Herman Mashaba tem alarmado moradores da maior cidade da África do Sul de mais de 4,4 milhões habitantes, acusando os imigrantes de outros países de constituírem a maior parte dos invasores, contribuindo para a xenofobia que constantemente se transforma em ataques violentos. Estrangeiros "não são da responsabilidade da cidade", disse o governante no ano passado.

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Imigrantes do Malauí fazem sapatos em prédio ocupado em Joanesburgo

Esta "retórica extremamente infeliz" é o que diferencia os planos de despejo atual daqueles feitos por administrações anteriores, disse Stuart Wilson, diretor executivo do Instituto de Direitos Sócio-Econômicos da África do Sul. A organização representa pessoas em cerca de 20 edifícios espalhados por toda a cidade e cerca de 80% dos moradores são sul-africanos, disse ele.

Em visitas feitas pela AP a edifícios "sequestrados", os moradores disseram que estão indignados por suas condições de vida. Alguns trabalham como guardas de segurança, empregados domésticos e como vendedores em bairros próximos. Outros estão desempregados, fazem bicos ou acabam no crime. Eles querem que o projeto de revitalização do local lhes traga um lar adequado e não os forcem a sair.

Esse plano apresentou problemas depois que uma decisão da Corte Constitucional (equivalente ao Supremo Tribunal Federal da África do Sul) no ano passado enfatizou o óbvio: a cidade não pode despejar as pessoas sem oferecer moradias alternativas adequadas, mesmo que os moradores concordem em sair dos prédios.

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Pátio de prédio ocupado em Joanesburgo vira depósito de lixo

"Os planos da cidade são de fornecer meras 364 novas camas em um alojamento temporário neste ano. Essa é uma pequena fração do que é necessário", afirmou o Instituto de Direitos Sócio-Econômicos da África do Sul após o desabamento do muro que matou três crianças. O Estado tem o dinheiro e o terreno e deve fornecer habitação a preços acessíveis, disse Stuart Wilson, completando que a cidade "não particularmente interessada" em habitação pública.

A administração anterior disse que são necessárias 16 mil unidades habitacionais para os moradores "mais vulneráveis" da cidade, de acordo com um relatório publicado em conjunto com a ONU-Habitat em 2016. O governo atual afirmou que, no geral, enfrenta um atraso habitacional de 300 mil unidades.

Por agora, dezenas de milhares de ocupantes, e outros que dizem que pagam aluguéis, são deixados em um limbo sujo sem serviços básicos e à mercê das altas taxas de crimes de Joanesburgo.

Em um prédio que a reportagem da AP visitou no bairro de Berea, os moradores imploraram por assistência. Um banheiro no primeiro andar transbordava com fezes, o quarto ao lado estava inundado com uma água cinzenta. Atrás de uma cortina, uma mulher se deitou sobre uma cama nas sombras com uma criança pequena agarrada aos seus seios nus. Ela estava doente, disseram moradores que entravam e saíam daquele quarto.

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Pessoas se esquentam em fogueira dentro de de prédio ocupado em Joanesburgo

Janelas quebradas estavam fechadas com trapos. Não havia utilidades para elas. Os moradores usavam baldes como toaletes e acendiam velas durante a noite para iluminar o local apesar do medo de incêndios.

"Não há vida. Estamos chorando ", disse Siphokazi Siyaya, 34, uma mãe de três crianças que contou estar vivendo há oito anos com até 200 outras pessoas.

Às vezes as pessoas estão brigando, dando tiros na frente de nossas crianças. Só queremos que cresçam com segurança."

Tradutor: Thiago Varella
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