Ortega desqualifica ex-sandinistas por falarem "como democratas de direita"

Fernando Garea e Sabela Bello

Manágua, 4 set (EFE).- O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, garante que continua sendo marxista, defende o sandinismo e critica com dureza alguns dos que participaram com ele da revolução que resultou a sua ascensão ao poder em 1979.

Nessa lista estão incluídos o escritor Sergio Ramírez, que chegou a ser vice-presidente, e o irmão Humberto Ortega, que foi chefe das Forças Armadas sandinistas.

Em entrevista à Agência Efe, Ortega classificou as denúncias de Ramírez como "contos", e condenou o irmão Humberto por ter ordenado disparos contra camponeses em 1990.

Ortega relatou que em 1990, quando perderam o poder, organizaram mobilizações com operários, estudantes e camponeses para defender o que considerava "conquistas da revolução".

"A meta era defender as conquistas da revolução, para que o governo as respeitasse, porque não era um triunfo contrarevolucionário, não lhes dava o direito de virem para varrer tido o que tinham herdado da revolução", explicou.

"Então chamaram o Exército. O governo democrático chamou o Exército, não bastou a polícia, e o Exército jogou fora os pontos de protesto em barricadas que existiam também", acrescentou.

Segundo Ortega, foram ordenados "disparos com Humberto sendo chefe do Exército, que antes tinha dito que faltariam postes no país para pendurar toda a burguesia".

"Outro que falou recentemente, (Jaime) Wheelock, ministro de Cultura, que depois foi para os Estados Unidos depois de 90, antes tinha dito que era preciso cortar as mãos dos latifundiários, por isso digo que eram mais radicais que eu", detalhou o governante.

Ortega disse se lembrar que o irmão usou os militares contra "trabalhadores que tinham lucrado com algumas empresas, aos quais enviou o Exército para que disparassem e tomassem as empresas, e houve mortos".

"Eles se desprenderam por causa da derrota eleitoral. Enquanto isso, eram radicais, eram mais radicais que eu. Estes que hoje falam como democratas de direita e que andam com a direita em coligação, eram mais radicais que eu", criticou.

De acordo com Ortega, "eram os que se opunham à existência de sacerdotes, curas católicas ou pastores evangélicos no governo sandinista os que andavam pregando o ateísmo".

"Eles nos criaram problemas porque este é um povo muito crente, e o ateísmo iria prejudicar um povo muito crente. Simplesmente, não está em nossa realidade cultural e política", explicou.

Para ele, "o marxismo é um guia para a ação": "Nós nos apegamos ao fato de que tínhamos uma fonte de valor político e ideológico que era (Augusto César) Sandino. Sandino fazia uma síntese do que eram nossos valores e nossas lutas, com uma essência estritamente e profundamente anti-imperialista", analisou.

"O marxismo, como um instrumento para desenvolver as ideias, para desenvolver os programas e a ação. Jamais nos deixamos levar pelo que era a interpretação dogmática que o próprio Marx não a enviou, mas partimos desse princípio e eu continuo pensando dessa maneira", reiterou.

O presidente da Nicarágua enfrenta uma crise sociopolítica desde 18 de abril como consequência de reformas na Previdência Social e que geraram uma revolta na qual 195 pessoas foram assassinadas, segundo o governo. Organizações de direitos humanos situam esse número acima de 400 vítimas.

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