Após prender pais por 'subversão', China coloca crianças de minoria muçulmana sob tutela do Estado

Yanan Wang e Dake Kang
Da Associated Press, em Istambul (Turquia)

  • Ng Han Guan/AP

    Crianças da etnia uighur brincam em Hotan, na China

    Crianças da etnia uighur brincam em Hotan, na China

Toda manhã, Meripet acorda para seu pesadelo: o governo chinês transformou quatro de seus filhos em órfãos, apesar de ela e o pai deles estarem vivos.

Meripet e seu marido deixaram as crianças com a avó em casa na China quando foram cuidar do pai dela, que estava doente na Turquia. Mas após as autoridades chinesas começarem a prender milhares de seus conterrâneos da etnia uigur por supostos crimes subversivos, como viajar para o exterior, a visita se transformou em um exílio.

Então, a sogra dela também foi presa e Meripet soube por uma amiga que seus filhos de 3 a 8 anos foram colocados em um orfanato na região de Xinjiang, sob os cuidados de um Estado que separou sua família.

"É como se meus filhos estivessem na prisão", disse Meripet, com a voz embargada. "Meus quatro filhos estão separados de mim e vivendo como órfãos."

A família de Meripet está entre as dezenas de milhares atingidas pela campanha do presidente Xi Jinping de subjugar uma região às vezes rebelde, inclusive com a detenção de mais de 1 milhão de uigures e outras minorias muçulmanas, algo que alarmou um painel das Nações Unidas e o governo dos Estados Unidos. Agora, há evidência de que o governo está colocando os filhos dos detidos e exilados em dezenas de orfanatos por toda Xinjiang.

Os orfanatos são o mais recente exemplo de como a China está sistematicamente distanciando os jovens muçulmanos de Xinjiang de suas famílias e cultura, como descobriu a "Associated Press" por meio de entrevistas com 15 muçulmanos e uma análise de documentos. O governo está construindo milhares de chamadas escolas "bilíngues", onde as crianças de minorias são ensinadas em mandarim e punidas por falarem em suas línguas nativas. Algumas delas são internatos, que os uigures dizem às vezes serem obrigatórias para as crianças e, no caso de uma família cazaque, a partir dos 5 anos de idade.

A China diz que os orfanatos ajudam as crianças desamparadas e nega a existência de campos de internação para seus pais. Ela se orgulha de investir milhões de yuans na educação em Xinjiang para tirar as pessoas da pobreza e afastá-las do terrorismo. Na quinta-feira (20), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Geng Shuang, disse que as medidas adotadas em Xinjiang eram necessárias para a "estabilidade, desenvolvimento, harmonia" e para o combate aos separatistas étnicos.

Mas os uigures temem que essas medidas visam basicamente eliminar sua identidade étnica, uma criança de cada vez. Especialistas dizem que o que a China está fazendo lembra o modo como os colonizadores brancos trataram as crianças indígenas nos Estados Unidos, Canadá e Austrália, políticas que deixaram gerações traumatizadas.

"Há todo um grupo étnico cuja base de conhecimento está sendo apagada", disse Darren Byler, um pesquisador da cultura uigur da Universidade de Washington. "O que estamos vendo é uma situação como a colonizadora na qual toda uma geração é perdida."

Para Meripet, a perda é uma agonia; é a ausência de seus filhos e o conhecimento de que estão sob custódia do Estado. Um ano e meio após partir de seu lar, a mãe de 29 anos olhava para a foto de um prédio pintado em cores vivas, cercado por arame farpado, onde ela acredita que seus filhos estejam detidos. Ela ficou em silêncio e depois começou a chorar.

"Quando finalmente voltar a vê-los, será que me reconhecerão?" ela perguntou. "Será que os reconhecerei?"

Dake Kang/AP
Morando na Turquia, Meripet, 29, segura uma fotografia de seus filhos que estão sob o poder do Estado na China

'Proteção a crianças desamparadas'

Quando Xi chegou ao poder em 2012, um desafio inicial ao seu governo foi o aumento de ataques violentos, que mataram várias centenas de pessoas e que Pequim atribuiu aos separatistas uigures. De lá para cá, Xi supervisionou o esforço mais extenso dos últimos anos para subjugar Xinjiang, nomeando em 2016 o ex-chefe do partido para o Tibete, Chen Quanguo, para comandar a problemática região que faz fronteira com o Afeganistão.

Chen implantou medidas de segurança sem precedentes, como campos de internação nos quais os muçulmanos são detidos sem julgamento e forçados a renegarem sua fé e jurarem lealdade ao Partido Comunista do governo. A China descreve o extremismo religioso como uma doença que precisa ser curada pelo que chama de "transformação por meio da educação". Ex-detidos dizem que uma pessoa pode ser colocada em um campo por rezar regularmente, ler o Alcorão, viajar ao exterior ou mesmo falar com alguém no exterior.

Os campos estão entre os aspectos mais perturbadores da campanha de Xi para afirmar o domínio pelo partido de todos os aspectos da vida chinesa, provocando comparações com Mao Tsé-tung. As autoridades que atendem ao chamado de Xi para a "sinização" (tornar chinês) da religião por todo o país têm fechado igrejas clandestinas, queimado Bíblias, substituído imagens de Jesus por fotos de Xi e derrubado as luas crescentes das mesquitas. O partido também reforçou sua capacidade de monitorar os movimentos de seus 1,4 bilhão de habitantes, com Xinjiang servindo como uma importante área de teste.

Em Xinjiang, a detenção deixou inúmeras crianças sem seus pais. A maioria dessas famílias na China não pode ser contatada por jornalistas. Mas a "AP" entrevistou 14 famílias uigures vivendo na Turquia e um homem cazaque em Almaty, com um total de 56 crianças que permanecem na China.

As famílias dizem que entre essas crianças, é de conhecimento que 14 estão em orfanatos e internatos públicos. O paradeiro das demais é desconhecido, pois a maioria de seus parentes adultos em Xinjiang está detida.

Alguns entrevistados, como Meripet, pediram para serem identificados apenas pelo primeiro nome, pois temem uma retaliação oficial contra seus parentes. Outros insistiram para que seus nomes completos fossem usados apesar dos riscos, dizendo estar desesperados para que suas histórias sejam ouvidas. Eles apelaram aos repórteres para rastrearem suas famílias em Xinjiang e uma entrevistada colocou um papel na mão de um repórter, com um endereço chinês escrito nele.

O governo regional parece estar agindo rapidamente na construção dos centros para abrigar os filhos desses exilados e detidos. Uma análise pela "AP" de documentos em Xinjiang revelou que desde o início do ano passado, o governo destinou mais de US$ 30 milhões (ou 200 milhões de yuans chineses) para construção ou ampliação de pelo menos 45 orfanatos, conhecidos de forma variada como "centros de bem-estar" e "centros de proteção" da criança, com leitos suficientes para receber cerca de 5.000 crianças.

Apenas em julho e agosto, o governo abriu licitação para a construção de pelo menos nove centros para "proteção de crianças desamparadas" na cidade de Hotan, em Xinjiang, e em vários condados nas prefeituras de Kashgar, Aksu e Kizilsu, habitadas principalmente por minorias étnicas. A maioria dos orfanatos possui um mínimo de cem leitos, como obrigado pelo governo, e alguns são muito maiores. Um documento pedia por um orfanato no condado de Moyu com prédios de quatro andares para dormitórios, chegando a 22.776 metros quadrados de tamanho, quase tão grande quanto quatro campos de futebol.

Esses números não incluem as pré-escolas e outras escolas onde alguns dos filhos dos uigures detidos estão sendo abrigados. É impossível dizer quantos filhos de detidos vão parar nessas escolas, pois elas também atendem outras crianças.

Shi Yuqing, uma autoridade de assuntos civis de Kashgar, disse à "AP" por telefone que "as autoridades fornecem ajuda e apoio a todos os necessitados, sejam eles filhos de criminosos condenados ou pessoas mortas em acidentes de trânsito". Mas esses serviços podem não ser bem-vindos. Um relatório de governo da Prefeitura Autônoma Mongol de Bayingolin, em junho do ano passado, reconheceu que os parentes resistiam em "entregar" os filhos de suas famílias estendidas para os orfanatos, por "falta de confiança" nos centros.

Uma amiga disse a Meripet em novembro do ano passado que seus quatro filhos estavam vivendo no Jardim de Infância da Bondade da Cidade de Hotan, no sul de Xinjiang. A amiga disse que a cunhada de Meripet tinha visitado as crianças e foi autorizada a levá-las para casa por apenas uma noite.

A escola parece um castelo do tamanho de uma casa, com fachada amarela alaranjada, torres cor de laranja e telhado azul. Sua entrada é bloqueada por um portão de ferro e o prédio é cercado por um muro com arame farpado. "Somos Felizes e Gratos à Pátria-Mãe", está escrito em letras vermelhas em uma cerca.

A diretora, que deu apenas seu sobrenome, Ai, disse aos repórteres da "AP" que a instituição é "apenas um jardim de infância normal". Mas a ansiedade das autoridades era clara: policiais armados cercaram o carro dos repórteres minutos após sua chegada à escola e ordenaram a eles que apagassem quaisquer fotos.

Gu Li, uma autoridade de propaganda de Hotan que também apareceu imediatamente no local, disse: "Há realmente crianças pequenas aqui, algumas delas órfãs cujos pais morreram".

Uma reportagem publicada em fevereiro no "Diário de Xinjiang", um jornal do partido, chamou o Jardim de Infância da Bondade da Cidade de Hotan de uma escola "gratuita, de período integral", para crianças com 6 anos ou menos e que fornece acomodação e roupas para aquelas cujos "pais não podem cuidar delas por vários motivos".

"Logo após muitas das crianças chegarem à escola, elas crescem mais e ficam mais robustas, além de rapidamente começarem a usar o mandarim para se comunicarem", dizia o artigo. Outra reportagem na mídia estatal, em janeiro, dizia que US$ 1,24 milhão (8.482.200 yuans) foi investido na escola.

Imagens por satélite mostram que a escola foi construída há menos de três anos, quando foi lançada a iniciativa para fortalecer a educação "bilíngue" em Xinjiang. Mais de 4.300 pré-escolas bilíngues foram construídas ou reformadas no ano passado, segundo o governo. Uma reportagem sobre o projeto em um jornal estatal regional disse que essas pré-escolas ensinam às crianças "hábitos civilizados".

"As crianças começam a educar seus pais: suas mãos estão sujas demais, suas roupas estão sujas demais, vocês não escovaram seus dentes", a reportagem citou Achilem Abduwayit, vice-chefe do órgão de educação da cidade de Hotan, como tendo dito.

A vida em um orfanato pode ter um impacto cultural e psicológico duradouro nas crianças, disse James Leibold, um especialista em políticas étnicas chinesas da Universidade La Trobe, em Melbourne, Austrália.

"Você cresce como um detento do Estado", ele disse. "Elas são instruídas a serem patrióticas, que a identidade e religião de seus pais é anormal, se não radical, de modo que precisa ser erradicada."

Meripet ao menos tem uma ideia de onde estão seus filhos. O irmão dela, um médico de 37 anos chamado Aziz, não tem notícia de seus três filhos pequenos desde que sua esposa foi levada para um centro de reeducação em junho de 2017.

Aziz fugiu para a Turquia há mais de um ano, após receber um telefonema da delegacia de polícia local ordenando que se apresentasse às autoridades imediatamente. Mais da metade de seus vizinhos já foi levada para centros de reeducação ou para a prisão, ele disse.

Agora, o médico é despertado com frequência pelo pesadelo no qual seus filhos estão amontoados no fundo de um penhasco, com seus rostos sujos de terra, pedindo para que ele os tire dali. Aziz caminha pelo que parece horas, mas não consegue chegar até eles. Ele então acorda com os gritos deles soando em seus ouvidos.

"Se pudesse, escolheria não ter nascido uigur, nem ter nascido em Xinjiang", disse Aziz. "Somos o grupo étnico mais desafortunado do mundo."

Ng Han Guan/AP
Segurança inspeciona equipamentos de câmeras de jornalistas em frente a um jardim de infância onde vivem crianças da etnia uigur da cidade de Hotan

'Elas não se parecerão mais conosco'

O governo diz que todos os 2,9 milhões de estudantes que cursam o ensino primário obrigatório e médio em Xinjiang receberão instrução em mandariam a partir deste mês, em comparação a apenas 39% em 2016.

Até mesmo os alunos da pré-escola são obrigados a aprender em mandarim. Uma ex-professora em uma pré-escola "bilíngue" fora de Kashgar disse que todas as aulas são dadas em mandarim e que todos os alunos uigures estão proibido de falar uigur na escola. Uma colega que usou uigur para explicar conceitos para os alunos foi demitida, segundo a professora, que vive na Turquia, mas pediu por anonimato por temer retaliação contra sua família na China.

Como todas as escolas na China, nesta os alunos são imersos em educação patriótica. Os livros da pré-escola são repletos de canções como "Sem o Partido Comunista Não Haveria uma Nova China", disse a professora.

Dilnur, uma estudante de administração e negócios de 35 anos exilada em Istambul, disse que as autoridades visitavam a pré-escola de seus filhos em Kashgar e perguntavam aos alunos se os pais deles liam versos religiosos em casa ou participavam de outras atividades religiosas. As perguntas forçavam na prática as crianças a espionarem suas próprias famílias. Um homem foi levado pela polícia depois que seu neto disse na sala de aula que ele tinha feito uma peregrinação a Meca, ela disse.

Sua filha de sete anos certa vez reclamou de estar com a garganta doendo de tanto cantar slogans do partido. "Mamãe, o que significa amar a pátria-mãe?" ela perguntou.

Algumas escolas bilíngues são internatos, que não são incomuns na China. Xinjiang há muito oferece internatos voluntários, que são vistos como oportunidades cobiçadas pelos melhores estudantes das minorias. Mas vários uigures afirmaram que, em muitos casos, o internato agora era obrigatório para crianças de minorias, enquanto as crianças da etnia chinesa han podem optar por continuar morando em seus lares.

O governo de Xinjiang não respondeu aos repetidos pedidos por comentários. O governo disse que os internatos gratuitos livram os pais das despesas com educação e custo de vida e ajudam no ensino do mandariam, que permitirá que seus filhos tenham maiores oportunidades de emprego.

Mas os uigures dizem que não querem que sua cultura seja apagada.

"Se as crianças são forçadas a falar mandarim e vivem todo dia como chineses han, temo que elas não se parecerão mais conosco", disse Meriyem Yusup, cuja família estendida tem quatro filhos enviados para os orfanatos públicos em Xinjiang.

Adil Dalelkham, um vendedor de meias de etnia cazaque exilado em Almaty, disse que apesar de seu filho de 5 anos poder viver com parentes, ele foi forçado a permanecer na pré-escola de segunda a sexta. O pai chamou a política de uma medida "aterrorizante" para extinguir a cultura cazaque.

Um empresário uigur em Istambul, também chamado Adil, contou uma história semelhante. O filho de Adil tinha 9 anos quando sua escola o transferiu automaticamente para um internato. Todas as crianças de certa idade no distrito uigur delas foram obrigadas a cursar o internato. Seu filho só é autorizado a ir para casa nos fins de semana e feriados.

"Havia grades como no zoológico em Kashgar", lembrou Adil.

Dilnur disse que seus vizinhos só eram autorizados a visitar seus filhos no internato nas noites de quarta-feira, e mesmo assim só podiam entregar doces para eles através da cerca.

"As metas educacionais são menos importantes que as metas políticas", disse Timothy Grose, um professor do Instituto Rose-Hulman de Tecnologia de Indiana, que realizou pesquisa sobre os internatos em Xinjiang. "Eles visam dissolver à lealdade à identidade étnica e desenvolver a lealdade à identidade nacional."

Um aviso do governo, postado em fevereiro em Kashgar, declara que as crianças da quarta série para cima com pais na detenção devem ser enviadas imediatamente para um internato, mesmo se um dos pais ainda estiver em casa. Devem ser instilados valores socialistas nos estudantes, disse o aviso, e estes devem aprender a "serem gratos pela educação e amar e retribuir à pátria-mãe", e evitar os "75 tipos de comportamento que demonstram extremismo religioso". Tal comportamento varia da convocação à "guerra santa" a deixar crescer a barba e parar de fumar e beber por razões religiosas, diz o governo.

A China insiste que garante a liberdade religiosa, mas os uigures veem o sistema educacional chinês como uma ameaça a ela. Nas escolas, as crianças são ensinadas a respeitar os professores mais que a seus pais e a criticarem a fé islâmica de seus pais, segundo Byler.

"Os alunos, as crianças, passam a questioná-los e a dizer, isso é retrógrado, isso é extremista", ele disse.

O aviso em Kashgar também disse que as escolas sendo modificadas para receber os alunos não podem colocar mais de 24 camas por cômodo, uma indicação do tamanho do programa. Em 2015, um enorme complexo de internato foi concluído nos arredores de Kashgar, com capacidade para receber 23.400 alunos e professores, segundo o jornal estatal "China Daily".

Abdurehim Imin, um escritor de Kashgar, disse que um amigo lhe disse que sua filha de 14 anos foi enviada para uma escola bilíngue em 2015, depois que sua esposa foi presa, por ter recebido como presente um azeite de oliva que ele enviou para ela. Quando repórteres da "AP" visitaram aquela que provavelmente é a escola da filha dele, o Colégio Nº4 do Condado de Peyzawat, uma autoridade local à paisana, que se identificou como Gu Li, disse que se tratava de um internato bilíngue. Ela disse que apesar dos estudantes uigures serem obrigados a estudar mandarim, também havia alunos da etnia han estudando uigur.

Mas no exterior da escola estava escrito em letras vermelhas: "Por favor, fale mandarim ao entrar no pátio da escola". O arame farpado em volta do campus se estendia por quilômetros, com fileiras de prédios baixos de apartamentos marcados como dormitórios.

Um historiador da Universidade de Sydney, David Brophy, diz que a política de internatos traz à mente as crianças aborígenes da Austrália, que eram separadas à força de suas famílias nos anos 1900 e colocadas em instituições públicas que desencorajavam a identidade indígena.

"Caso as políticas chinesas continuem nessa direção, poderemos falar sobre uma versão chinesa da Geração Roubada", ele disse.

Lefteris Pitarakis/AP
Meripet, 29, carrega seu filho Abduweli, em um playground em Istambul, na Turquia

'Uma tortura eterna'

Desde que chegou a Istambul sozinho em 2014, Imin, o escritor de 42 anos, leva uma existência solitária em um apartamento mal iluminado com paredes nuas e pilhas de seus escritos.

"Estamos morrendo todo dia", disse Imin. "Não podemos ver nossos filhos, não podemos ver nossos pais. É uma tortura eterna."

Em dezembro, foi enviada para ele uma foto de sua filha usando um "gipao" (vestido tradicional chinês). Ele apagou a foto porque não podia suportar olhar para ela, ele disse, e ficou sem dormir por quase um mês.

Imin também tem quatro outros filhos em Xinjiang. Há poucos meses, um amigo que visitou a casa dele em Kashgar disse a Imin que dois de seus filhos morreram em um acidente de trânsito, enquanto a esposa dele está na prisão. Ele não sabe onde estão os outros dois.

Sentindo-se impotente, ele escreveu um verso atrás do outro em pesar:

"Irei... rasgar sua noite escura e interminável...

Irei, abraçar você de novo em minha cidade...

Irei, levando meu pesar ao seu túmulo."

Em outro lugar em Istambul, a casa de Meripet estava em silêncio durante o Eid al-Adha, um feriado muçulmano comemorado com grandes reuniões familiares. Em uma sala no final de um corredor, era possível ouvir as risadas distantes dos filhos de parentes, crianças que não eram as dela.

Ela manuseava as fotos que mantêm em sua bolsa: Abdurahman, o mais velho; Adile, sua única filha; e seus dois filhos mais novos, Muhemmed e Abdulla. Meripet tem um quinto filho, chamado Adbuweli, nascido na Turquia. Ela o chama de "minha única luz".

"Às vezes me pergunto se enlouquecerei com a dor", ela diz. "Só consigo continuar vivendo porque sei que há esperança, sei que um dia verei meus filhos de novo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato
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