Novo artigo da Economist critica 'visões extremas' de Bolsonaro e volta a chamá-lo de ameaça

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/The Economist

A revista britânica The Economist voltou a publicar um texto sobre Jair Bolsonaro (PSL) nesta quinta-feira (11), três semanas depois de publicar uma matéria de capa, em tom editorial, afirmando que o presidenciável representa uma ameaça para o Brasil e para América Latina.

Nesta sexta, a revista publicou um novo artigo na coluna Bello, dedicada à América Latina, sob o título "Flashback para 1964: O autoritário brasileiro sem um exército". No texto, a revista considera que uma eventual eleição de Bolsonaro não representa que o país voltará a ser uma ditadura militar, cenário que não agradaria nem a mídia, nem a sociedade civil e nem mesmo as Forças Armadas, de acordo com o texto.

Segundo a revista, no entanto, Bolsonaro é uma ameaça por outros motivos. "Em vez de um flashback para 1964 [ano em que os militares tomaram o poder no poder], Bolsonaro representa uma ameaça mais insidiosa ['traiçoeira']. Ele expressa visões extremas. Ele disse que a ditadura errou em 'torturar em vez de matar'. Ele quer que a polícia mate mais 'criminosos', e quer liberar a posse de armas."

Em seguida, a revista lembra a ideia de Bolsonaro, citada no início de julho, de aumentar o número de ministros do Supremo Tribunal Federal de 11 para 21 para que pudesse ele pudesse nomear dez juízes "isentos" para a Corte. "Ele falou sobre 'aparelhar' [NT: 'packing', no termo original em inglês] a Suprema Corte. Como disse o [colunista brasileiro da Folha de S.Paulo] Matias Spektor, é a qualidade da democracia brasileira, e não a sua sobrevivência, que está sob risco imediato", conclui o artigo da Economist.

A revista, editada desde 1843 e de viés liberal, é uma das publicações mundiais econômicas mais conhecidas do mundo. Além dos textos críticos a Bolsonaro, a Economist ganhou notoriedade no Brasil por defender a renúncia de Dilma Rousseff meses antes de a petista ser julgada no processo de impeachment, em 2016.

Militares limitariam Bolsonaro, diz a revista

Na primeira parte do artigo, a Economist explica o contexto do início da ditadura militar de 1964, quando "unidades do Exército brasileiro derrubaram o governo democrático de João Goulart, um presidente de esquerda". A revista ressalta o apoio inicial de parte da classe política brasileira da época, que depois teria sido pega de surpresa com a permanência dos generais no poder até 1985.

"Alguns brasileiros veem uma nova colaboração civil-militar, de forma revertida, na provável vitória de Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército", escreve a publicação, citando as defesas do presidenciável para a ditadura militar brasileira e dizendo que ele é "um fã do antigo ditador chileno Augusto Pinochet".

Além disso, a Economist lembra dos planos citados por Bolsonaro de colocar militares como chefes de ministérios e seu candidato a vice na chapa, o general Hamilton Mourão, "que no mês passado falou sobre a possibilidade de um 'autogolpe' caso o país se transforme numa anarquia".

"Certamente, há paralelos com 1964. Agora, como naquela época, a política brasileira está polarizada entre esquerda e direita. Goulart era um pretenso reformista, porém ineficaz. Ele foi um administrador desastroso da economia, como foi o PT com Dilma Rousseff."

"Em 1964, os militares desconfiavam, não sem razão, que Goulart planejava seu próprio golpe contra o Congresso e os governadores. Menos provável, de que ele levaria o Brasil no caminho da recente revolução comunista de Fidel Castro em Cuba, assim como os apoiadores de Bolsonaro temem, erradamente, que o PT vai transformar o Brasil na Venezuela."

Na sequência, a Economist diz que isso não significa que Bolsonaro tentaria replicar a ditadura e afirma que seu crescimento reflete o ódio espalhado pelo PT e uma demanda popular por mudança, renovação econômica e segurança, "mas não necessariamente por um governo militar".

"Também não há motivo para acreditar que as Forças Armadas queiram tomar o poder. Elas estão orgulhosas de serem uma das instituições mais respeitadas do Brasil", escreve a revista, citando as falas do general Eduardo Villas-Bôas, comandante do Exército brasileiro, rechaçando a possibilidade de golpe e suas críticas ao envolvimento da instituição no combate ao crime organizado.

"Mais do que um movimento de direita organizado, Bolsonaro comanda uma corrente de opinião autoritária. Ele pode estar mais inclinado a uma dinastia do que uma ditadura", escreve a revista, citando as eleições de seus filhos Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) à Câmara Federal e Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) ao Senado.

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