França dará curso para formar ex-guerrilheiros das Farc em guias florestais

Marta Garde.

Paris, 26 out (EFE).- Dois anos depois da assinatura do acordo de paz entre o governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a França formará ex-combatentes dessa organização armada em guias florestais, dentro dos esforços internacionais para garantir a estabilidade no país.

"Não é uma declaração de inocência", advertiu o jornal francês "Sud Ouest" quando o Conselho da Nouvelle-Aquitaine aprovou a proposta, em 8 de outubro.

O plano é uma iniciativa do Ministério de Relações Exteriores para ajudar na reinserção social dos ex-guerrilheiros, algo que o governo francês considera prioritário para a Colômbia.

"Uma desmobilização bem-sucedida anda de mãos dadas com a aplicação de um sistema de formação para que as pessoas possam entrar no mercado de trabalho", diz o projeto do Conselho da Nouvelle-Aquitaine.

Na primeira etapa, em 2019, cinco agentes do Parque Natural das Landes de Gascogne irão ao departamento colombiano de Nariño para dar aulas aos ex-integrantes das Farc. Depois, um número ainda não definido completará a formação na França, com ênfase em preservação do meio ambiente e biodiversidade.

"Independentemente do que aconteceu antes, que é mais do que criticável, a realidade é que se queremos que haja um processo de paz na Colômbia a comunidade internacional deve dar ajudar", explicou à Agência Efe Renaud Lagrave, presidente do parque.

Ele irá em dezembro para a Colômbia para fechar um plano avaliado em 60 mil euros (quase R$ 250 mil), dos quais o departamento de Nariño arcará com 15 mil, a Nouvelle-Aquitaine entrará com 30 mil e o restante será dividido entre o Ministério de Meio Ambiente, o parque e diversas agências de cooperação regional.

O perfil dos candidatos, a quantidade de participantes e o tempo do curso serão estabelecidos nessa viagem.

O que já certo é que o curso, conforme o projeto, contribuirá para dar "soluções aos problemas de desmatamento e deterioração da biodiversidade de Nariño", o principal território produtor de coca da Colômbia.

O presidente do agora partido político das Farc, Rodrigo Londoño, denunciou em agosto - quando ainda era líder do grupo guerrilheiro - o "abandono do Estado" e disse ser preocupante o fato de os mais de 7 mil desmobilizados não terem garantias de segurança respeitadas e enfrentarem uma reinserção social conturbada. Mas a ideia de ter ex-guerrilheiros na França não convenceu todo mundo.

O projeto aprovado pelo Conselho Regional, presidido pelos socialistas, foi rejeitado por grupos opositores, como os partidos Os Republicanos (centro-direita) e Frente Nacional (extrema-direita).

"Trazer ex-terroristas pode ser particularmente perigoso. Haverá um acompanhamento psicológico ou psiquiátrico? Quem garante que eles não terão recaídas?", questionou a conselheira regional do partido Frente Nacional, Edwige Diaz.

Para ela, o plano "importa terroristas" e custa caro.

"A região não tem motivo para gastar tanto dinheiro em um combate que não é seu. O desemprego disparou na França, a insegurança também, e temos cada vez mais pobres. Esses 30 mil euros poderiam ser utilizados de outra forma", afirmou.

Já para o diretor do parque não se trata de uma questão de dinheiro.

"Eles teriam votado contra, mesmo que custasse só um euro. Esse é um pretexto para não ajudar. Todos sabem que (a Frente Nacional) é o partido da exclusão, eles são sistematicamente contra toda cooperação", disse Lagrave.

Apesar da oposição vista, ele comemorou poder contribuir "modestamente" a favor da paz com uma proposta que chegará também aos estudantes franceses, quando os guias nacionais do parque contarem nas escolas a experiência que tiveram ao final do processo.

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