Suspeito de 'Boa Noite, Cinderela' na Argentina cai em armadilha brasileira

Luciana Taddeo
Colaboração para o UOL, em Buenos Aires

  • Evandro Junior / Divulgação

    Homem identificado como Ezequiel, 25, é suspeito de aplicar golpe contra homens que conhecia em aplicativo

    Homem identificado como Ezequiel, 25, é suspeito de aplicar golpe contra homens que conhecia em aplicativo

Brasileiros em Buenos Aires organizaram uma emboscada para prender um suspeito de dar golpes do "Boa Noite, Cinderela", principalmente contra estrangeiros. O suspeito foi detido pela Polícia da Cidade de Buenos Aires na última terça-feira (4) e enfrentará o processo judicial em liberdade.

O plano teve início com um relato publicado em uma rede social pelo goiano Vismar Filipe, 31, há cinco anos na Argentina. Estudante de medicina, ele disse que conheceu o acusado por meio de um aplicativo e que o recebeu em sua casa. Após tomar vodca e suco, Filipe dormiu profundamente e, ao acordar, viu sua casa "de pernas para o ar". Ele acredita ter sido drogado.

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Filipe relata que foram levados o celular, os óculos e o dinheiro que tinha em um cofre. "Tudo estava mexido, fiquei desesperado. Também faltavam coisas do meu amigo, como um tablet. Pensei: 'Meu Deus do céu, fui roubado'", relatou ao UOL.

Mas o pior ainda seria descoberto: ao tomar banho, notou sangue seco desprendendo do corpo. "Cheguei a me apalpar para ver se tinha sido esfaqueado. Coloquei a mão na minha bunda e doía muito. Comecei a chorar", conta ele, que denuncia ter sofrido estupro.

Arquivo pessoal
Suspeito levava no bolso frascos com líquidos que serão analisados pela polícia
O relato do estudante goiano, que decidiu voltar ao Brasil, gerou comoção entre os brasileiros que moram em Buenos Aires. Além da enxurrada de mensagens solidárias que recebeu, algumas mencionavam outras denúncias sobre o suspeito, identificado como Ezequiel, 25, argentino.

Emboscada brasileira

Um grupo de brasileiros criou uma página no Facebook para encontrar mais vítimas. Relatos indicam que o suspeito buscava homens de fora da capital argentina. A maioria denuncia roubo, mas entrevistados pelo UOL relatam ter ouvido mais casos de estupro. O golpe mais antigo identificado pelo grupo foi há cerca de três anos.

Um dos que sofreu roubo após ter sido dopado foi o paulista Davi Barros, 38, quando vivia havia somente dois meses na Argentina, em setembro do ano passado. Ele conta que uma das estratégias de Ezequiel é elogiar as fotos da vítima e perguntar a marca do celular utilizado. No episódio, Barros acabou tendo relógios, pesos argentinos e dólares, bijuterias e peças de roupa roubados.

Barros teve a iniciativa de armar um plano para prender Ezequiel. Segundo ele, pelo menos dez brasileiros teriam sido vítimas do golpe. Também haveria vítimas do interior da Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Equador e Porto Rico.

"Nós tivemos que agir e armar isso para a polícia. A gente começou a ficar com medo, porque o ataque ao Vismar foi mais violento do que os outros que a gente tem conhecimento. Uma hora alguém ia morrer", explica Barros. Segundo ele, muitas vítimas já tinham feito denúncia em delegacias.

Isca

A isca para atrair Ezequiel foi um perfil no aplicativo utilizado pelo suposto golpista. O baiano Evandro Junior, 28, ofereceu-se para o plano. Ele estudou características que atraíam o suspeito: pessoas com poucos amigos, carentes e com poder aquisitivo entre médio e alto.

Em apenas dois dias, o encontro foi marcado. "Parecia que meu coração ia explodir. Tentei respirar fundo, me acalmar e sorrir como se fosse um encontro real, mas a vontade era de pular no pescoço dele ou sair correndo", explica Junior.

Enquanto isso, Barros, um argentino que já tinha sido vítima de Ezequiel e mais dois homens se esconderam nas proximidades. Quando Ezequiel se assustou com o latido de um cachorro, Júnior revelou o plano. "Eu o segurei pelo braço e disse: 'Você caiu, já era!'. Ele tentou escapar e eu o derrubei no chão tentando imobilizá-lo. Foi o tempo de todos correrem e o segurarem', explica.

A polícia foi acionada, e o suspeito levado à delegacia. Dois celulares e frascos com líquidos, que serão analisados, foram apreendidos com o suspeito.

Em nota, a Polícia da Cidade de Buenos Aires chama Ezequiel de "viúvo negro" e afirma que, de acordo com a denúncia do grupo que armou a emboscada, desde fevereiro existiam outras cinco acusações similares contra ele. Ezequiel foi solto por ordem do Juizado Nacional Criminal e Correcional e será investigado em liberdade. As autoridades alegam falta de provas e de vinculação entre as denúncias.

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