Vítimas do Estado Islâmico, mulheres yazidi lutam para derrubar o tabu do estupro

Donaueschingen, Alemanha

  • Thomas Kienzele/AFP

    Lewiza, 22, e o psicólogo curdo-alemão Jan Kizilhan. Depois de três anos de tratamento ela pode finalmente pode dar voz a sua dor, embora ainda lute para conviver com os traumas

    Lewiza, 22, e o psicólogo curdo-alemão Jan Kizilhan. Depois de três anos de tratamento ela pode finalmente pode dar voz a sua dor, embora ainda lute para conviver com os traumas

Jovens mulheres yazidi, vítimas de violência sexual por integrantes do grupo Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria, reconstroem suas vidas na Alemanha, onde fazem terapia e tentam acabar com um dos maiores tabus nas sociedades do Oriente Médio: o estupro.

Entre estas mulheres refugiadas na Alemanha, Nadia Murad, uma das contempladas com o Prêmio Nobel da Paz 2018, leva a voz das yazidis por todo o mundo para que o crime do qual foram vítimas não seja silenciado.

As jovens mulheres desta minoria curdófona monoteísta sofreram atrocidades sexuais e torturas, e foram vendidas em mercados de escravos pelos extremistas do EI.

A milhares de quilômetros da região iraquiana de Sinjar, 1.100 delas foram acolhidas no coração da Floresta Negra dentro de um programa de ajuda estabelecido no final de 2014 pelas autoridades regionais de Baden-Wurtemberg.

"O começo aqui foi difícil. Tinha medo o tempo todo, achava que voltaria a cair nas mãos do Daesh [acrônimo em árabe do EI]", conta Lewiza sobre sua chegada à Alemanha, há três anos.

Tudo era novo'

A jovem, de 22 anos e que não quis revelar o sobrenome, teve que reaprender tudo ao chegar à Europa. "Tudo era novo para mim: fazer terapia, falar com alguém sobre o meu estado. Mas cada vez que falo, me sinto muito melhor", explica à AFP em uma clínica especializada em Donaueschingen, perto da fronteira suíça.

Sentado ao lado dela, o professor Jan Ilhan  Kizilhan traduz suas palavras do curdo ao alemão, embora Lewiza esteja inscrita em uma escola de hotelaria da região.

Este psicoterapeuta alemão, especializado em traumas, segue a evolução destas jovens, inclusive Nadia  Murad, incentivando-a em 2016 a intervir ante o Conselho de Segurança da ONU.

Ele mesmo tinha ido em 2015 procurar estas vítimas traumatizadas, que sobrevivem em condições lamentáveis em campos de refugiados no norte do Iraque.

O estado de Baden-Wurtemberg pediu a ele que se encarregasse delas na região e propôs 95 milhões de euros para o programa.

Psicólogos, trabalhadores sociais e intérpretes fazem uma formação especial para ajudar as pacientes.

"Os termos que empregam são diferentes" dos dos europeus, afirma Jan  Ilhan  Kizilhan. "Não dizem que foram violentadas, mas que se casaram [...] Não dizem que sofreram traumas, dizem que lhes dói a cabeça ou o ventre", explica.

Expulsas

Para os yazidis, como acontece em todo o Oriente Médio, o estupro é uma desonra para a mulher e sua família. As vítimas de violência sexual podem ser expulsas de sua comunidade. O desespero leva muitas yazidis ao suicídio.

Para ajudá-las, o psicoterapeuta recorreu também ao líder espiritual da comunidade, Baba Sheij, a quem pediu que fizesse um gesto para as vítimas.

"Para mim, como psicoterapeuta, era importante" que ele beijasse essas mulheres na testa antes de que partissem para a Alemanha e que declarasse publicamente que elas continuavam sendo yazidis, apesar dos estupros.

"Só estando seguro de sua identidade, pode-se iniciar uma terapia", explica o especialista, de origem curda.

Nadia  Murad foi uma das primeiras a falar. Paralisada pelas violências que sofreu, "chorava muito e desabava", conta Kizilhan, que a viu pela primeira vez em um campo de refugiados no Iraque. "Mas me dizia: quero falar" sobre o que ela e as outras sofreram.

Depois de três anos de tratamento, Lewiza também consegue dar voz à sua dor, mesmo que seu olhar se perca no vazio durante seu incrível relato.

Os extremistas islâmicos do EI "fizeram tanto mal ao seu redor, que sequer sei se um processo judicial poderia reparar isso", lamenta.

Jan  Ilhan  Kizilhan assegura que, embora tenha sido ferida para sempre, a minoria vive hoje uma "mudança de paradigma".

Nesta "sociedade patriarcal [...] foram mulheres como Nadia que se levantaram", analisa. "São elas que agora dirigem nossa sociedade".

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