Tragédia no esporte paraolímpico: Do título à morte fulminante em 5 dias

Gustavo Franceschini
Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/CPB

    Joseano Felipe comemora conquista da medalha de ouro no levantamento de peso no Parapan

    Joseano Felipe comemora conquista da medalha de ouro no levantamento de peso no Parapan

O esporte paraolímpico brasileiro viveu uma tragédia na última quinta-feira. Depois de queixar-se de dores no peito para seu filho, Joseano Felipe amanheceu morto em sua casa em Natal (RN), vítima de um infarto. Sem os movimentos das pernas desde 2000, ele era atleta do levantamento de peso e havia conquistado, cinco dias antes, um dos títulos mais importantes da carreira.

A vitória na Copa do Mundo, disputada no Rio de Janeiro, colocou Joseano Felipe na sétima colocação do ranking mundial da categoria até 107 kg. A posição lhe dava uma vaga nos Jogos Paraolímpicos do Rio de Janeiro e confirmava um crescimento impressionante no esporte durante os últimos anos. Em menos de uma semana, a euforia foi trocada pelo choque.

"Mais que o atleta, a gente perde um amigo. Há uma semana a gente estava junto, ele estava fazendo brincadeiras. Quem o conhecia bem sabia o quanto ele era determinado, que a grande meta dele era ir aos Jogos. Foi uma surpresa terrível", disse Rodrigo Braga, médico da seleção paraolímpica de levantamento de peso e amigo de Joseano.

Quem encontrou o corpo foi Phelippe Michel, filho do atleta. Segundo Braga, Joseano se queixou um dia antes de dor no corpo, mas recusou as tentativas do filho em leva-lo ao hospital e morreu durante a noite. A causa da morte ainda não foi divulgada pelo IML (Instituto Médico Legal), mas o mal súbito surpreendeu a todos.

"Há pouco mais de duas semanas nós fizemos um teste de resistência. Ele foi o melhor da seleção e ainda brincou que entre os mais pesados ele se saiu melhor. Os resultados não apresentaram nenhum problema", disse Valdecir Lopes, treinador da seleção. Braga ainda acrescenta que não havia nada na rotina de Joseano que indicasse um problema.

"Eu desconheço. Ele fez testes cardíacos há menos de um ano, tinha uma alimentação regrava e evitava até de sair à noite. Era uma vida de atleta", resumiu o médico.

Tiro em rebelião tirou movimento das pernas

Joseano ficou paraplégico em 2000, quando ainda atuava pelo Bope (Batalhão de Operações Especiais) do Rio Grande do Norte. Durante uma rebelião, ele levou um tiro e perdeu os movimentos das pernas. Depois de cinco anos de depressão, ele teve contato com o levantamento de peso e virou um atleta paraolímpico. 

"Nós conversávamos bastante sobre esse período. Ele sempre foi muito ativo antes do acidente e sentiu o choque depois. Sempre falou da importância do esporte para que ele se aceitasse e voltasse a gostar de viver", disse Rodrigo Braga.

O CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) emitiu uma nota oficial lamentando a morte do atleta. "Ficamos extremamente chocados com a notícia do falecimento do halterofilista Joseano Felipe. Mais do que o grande atleta que foi, é importante ressaltar e relembrar o homem, a pessoa. Nossos pensamentos estão com a família para que possam suportar este momento de dor", disse Andrew Parsons, presidente do CPB.

"Joseano era muito querido e popular no circuito do IPC de halterofilismo. Estava também bem próximo de conseguir vaga nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016. Sua falta será sentida por todos do Movimento Paralímpico, em especial aqueles da comunidade do halterofilismo", disse Phil Craven, presidente do IPC (Comitê Paralímpico Internacional, na sigla em inglês).

Até a Copa do Mundo do último sábado, o melhor resultado de Joseano havia sido o ouro no Parapan de Toronto. O atleta deixou um filho, Phelippe Michel, de 23 anos. 
 

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