Facebook dá 450 páginas de respostas ao Congresso dos EUA sem nada de novo

Márcio Padrão
Do UOL, em São Paulo

  • Brendan Smialowski/AFP

    Mark Zuckerberg suspira durante depoimento ao Senado americano

    Mark Zuckerberg suspira durante depoimento ao Senado americano

Se você acompanhou a transmissão ao vivo dos dois dias em que o executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, respondeu a muitas perguntas de políticos americanos, deve lembrar que várias delas ficaram sem resposta porque "Zuck" disse que não as tinha no momento. Ele prometeu responder depois, e fez isso agora.

Zuckerberg foi sabatinado por mais de 10 horas em abril no Congresso dos EUA por conta do escândalo de abuso de dados da Cambridge Analytica. Em maio, fez o mesmo no Parlamento britânico

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Algumas questões nos EUA foram encaminhadas à equipe do executivo, e as respostas viriam depois por escrito. Elas enfim chegaram: na segunda (11), o site do Congresso as publicou em dois documentos: um para a comissão do Judiciário, e outro, do Comércio. Juntos, mais de 2.000 perguntas respondidas em 454 páginas.

As respostas seguiram o tom polido, burocrático e meio pela tangente das respostas que o próprio Zuckerberg deu pessoalmente em abril. 

E em resumo, nada de muito novo para quem viu as sabatinas, tentou ler comunicados e páginas oficiais do Facebook, ou mexeu nas configurações: a rede social sabe tudo e mais um pouco de nós, e está convencida de que tudo bem com isso.

Perfis-sombra? Sim

Uma das partes mais nebulosas das sabatinas é sobre se o Facebook coletava dados de usuários de internet que sequer tinham contas no Facebook --algo que foi apelidado de "perfis sombra". A empresa finalmente confirmou que faz isso, e como. 

Quando as pessoas visitam apps ou sites que apresentam nossas tecnologias, como os botões Curtir ou Comentar, nossos servidores registram I) o navegador ou o aplicativo usado por um determinado dispositivo ou usuário visitou o site; e II) qualquer informações adicionais que o editor do app ou website escolheu compartilhar com o Facebook sobre as atividades da pessoa (como o fato de uma compra ter sido feita no site).

A declaração não veio sem poréns. O Facebook diz não criar perfis ou rastrear o comportamento de navegadores ou de apps de não usuários. Além disso, se uma pessoa não tiver uma conta no Facebook, pode entrar em contato com a rede social para solicitar uma cópia de suas informações por este formulário.

A empresa ainda reforçou que não é a única a adotar essa prática. "Isto é um recurso padrão da internet, e a maioria dos sites e apps compartilha essas mesmas informações sempre que as pessoas visitam seu website ou aplicativo", disse. E citou como exemplo o site do Comitê de Comércio do Senado, que compartilha dados com o Google, sua afiliada DoubleClick e com a empresa de análise Webtrends. 

A resposta foi interessante, mas não inédita, pois foi uma versão daquela que o próprio Facebook já tinha dado em abril, embora não tenham usado o termo "perfil-sombra" para explicar a prática.

Sabe até quando você carrega o celular

Assim como em abril, uma prática do Facebook ao responder as perguntas por escrito foi repetir respostas. Algo que foi bastante repetido foi o tópico "Informações que coletamos dos aparelhos inclui...", usado oito vezes nos documentos.

E quais são essas informações? Muitas, claro. Elas são divididas em seis temas:

  • Atributos do aparelho: sistema operacional, armazenamento e até nível da bateria e força do sinal do celular/notebook
  • Operações: por exemplo se uma janela está em primeiro ou segundo plano, ou movimentos do cursor --para ajudar a "distinguir humanos de bots", dizem 
  • Identificadores: IDs do aparelho, jogos e apps usados
  • Sinais do aparelho: sinais de Bluetooth e informações sobre pontos de acesso de Wi-Fi nas proximidades
  • Dados das configurações do aparelho: como acesso ao GPS, câmera ou fotos, se o usuário permitiu isso ao instalar o app do Facebook.
  • Rede e conexões: informações como nome de sua operadora móvel ou provedor de serviço de internet, idioma, fuso horário, número do celular, endereço IP, velocidade de conexão etc.

Se ficou assustado, novamente avisamos que isso não é novidade: está tudo lá nos termos de privacidade do Facebook, disponível ao alcance de uma busca na internet.

Tendências políticas e regulação

Alguns políticos de direita pressionaram Zuckerberg em abril sobre se a rede social é tendenciosa para proibir ou permitir conteúdo --algo que em tese não teria nada a ver com o que rolou com a Cambridge Analytica, e sim com as políticas internas do próprio Facebook. Mas é uma crítica antiga à rede social.

O senador republicano Ted Cruz perguntou sobre vários exemplos de posts políticos que o Facebook removeu ou não, e pediu a lógica da empresa para cada caso. O Facebook se esquivou, não detalhando cada caso mas explicou mais sobre sua política de combate ao discurso de ódio e disse que havia cometido um "erro" ao derrubar parte do conteúdo.

Assim como rolou em abril, o Facebook disse ao senador democrata republicano Richard Blumenthal que estava aberto à regulamentação da privacidade, desde que fosse "o regulamento certo" e se prontificou a fazer comentários a propostas de novas leis.

Sobre se implementaria as mudanças exigidas pela União Europeia após a GDPR entrar em vigor, o Facebook disse que não haverá mudança em termos de uso para os americanos ainda, mas que os novos controles e configurações pós-GDPR estão disponíveis para pessoas em todo o mundo, incluindo controle de reconhecimento facial e controle de coleta de dados para segmentar anúncios.

Ainda há muita desconfiança em relação a Zuckeberg e este pode ser o motivo

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